Crítica I Capitão América 2 - O Soldado Invernal (10/04/14)

As melhores fases do Capitão América nos quadrinhos colocam o chamado "Sentinela da Liberdade" em confronto com sua própria origem. Fruto de uma época mais simples, em que o mal era fácilmente identificável pela suástica invertida no ombro, o super-herói vestido com a bandeira dos Estados Unidos representa um ideal patriótico americano tão ultrapassado quanto seus 73 anos de idade.

Sempre foi difícil  relacionar-se com um personagem tão centrado na política dos EUA - que migra muito mal para mercados internacionais. Mas há algum tempo a Marvel Comics, cujo apreço ao lucro, na melhor tradição do capitalismo que tem nos EUA seu maior representante, aprendeu a colocar essa bandeirosa figura justamente como um antagonista do governo, uma voz contestadora e representativa daqueles dias menos cinzentos.

A estratégia funciona nas páginas e agora migra também para as telas. Capitão América 2 - O Soldado Invernal aproveita exatamente o olhar crítico de um homem dos anos 1940 sobre os EUA de hoje. Steve Rogers (Chris Evans) continua um soldado, mas enquanto anota em seu caderninho os ícones da cultura pop que não viu surgir durante seu congelamento, também  depara-se com mudanças drásticas no que os EUA passaram a representar.

O filme do Marvel Studios fala de vigilância, guerra ao terror e o Ato Patriótico, que dá poderes aos departamentos de espionagem como medidas preventivas de ataques. Nada melhor, portanto, que usar a S.H.I.E.L.D. de Nick Fury (Samuel L. Jackson), a maior organização de espionagem da Marvel, como pano-de-fundo para uma trama repleta de reviravoltas, segredos governamentais e conspirações.

Na história, depois de uma missão nebulosa, o Capitão América e a Viúva Negra (Scarlett Johansson) deparam-se com uma realidade inesperada dentro da organização em que trabalham, além de uma nova ameaça mascarada, o ciborgue Soldado Invernal. Assim, partem ao lado de um novo aliado, o Falcão (Anthony Mackie, ótimo em ação), para impedir uma potencial catástrofe.

Não é por acaso que o filme está sendo comparado aos thrillers de espionagem da década de 1970 (algo que a presença de Robert Redford só faz reforçar). A inspiração do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é clara. Mas a aura de diversão, que mistura ação e humor, que já virou uma marca registrada do estúdio, faz-se presente. Pode respirar aliviado quem estava com receio que a onda realista de filmes de super-heróis chegasse à Marvel. Os temas podem ser sérios, mas os arroubos fantasiosos e explosivos, repletos de tiradas bem-humoradas, seguem intactos.

Os produtores ainda erram  na apresentação, porém. A insistência nos ingressos mais caros do 3D, em mais uma desnecessária conversão que nada agrega à experiência, poderia ser revista. Nada contra o formato, mas os filmes precisam ser melhor pensados para valer o dinheiro extra.

Decisões financeiras à parte, os diretores Joe e Anthony    Russo garantem um ótimo equilíbrio entre os elementos, explorando muito    bem cada personagem, dando peso à pancadaria e, na tradição da "Casa das    Ideias", encontram espaço de sobra para ampliar o universo cinematográfico    Marvel com um sem-fim de menções a outros personagens. A empresa segue assim    dando aos seus fãs exatamente o que eles querem ver nos cinemas e um Sentinela    da Liberdade isento de afiliações, fazendo jus ao seu epíteto. [Érico Borgo]

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Crítica I Veronica Mars - O Filme  (14/03/14)

O filme que continua a história da série de TV Veronica Mars abre com uma recapitulação explicando quem é a garota do título, o que aconteceu em sua adolescência e quem são as pessoas mais importantes em sua vida. O segmento é de extrema importância para os não espectadores como eu, que se situam na trama e entendem ao menos o básico do necessário para prosseguir sem as três temporadas que antecederam o longa.

Foi depois de muito esforço que o longa foi produzido; após o cancelamento da série, o criador Rob Thomas chegou a escrever um roteiro para o possível filme que encerraria o arco deixado em aberto, mas o projeto não foi aprovado pela Warner. Conversas continuaram ao longo dos anos e finalmente, em março de 2013, deu-se início à arrecadação de custos para o longa através do Kickstarter. A campanha não só foi um sucesso como Veronica Mars atingiu sua meta em apenas um dia e teve o maior número de apoiadores - 100 mil doadores e mais de US$ 5 milhões arrecadados.

Não há dúvida de que os marshmallows (como são conhecidos os fãs da série) foram essenciais para que tudo se consolidasse. Fiéis não só aos personagens como também aos atores e roteiristas, eles chegaram a lutar pela renovação de Veronica Mars em 2007, indo à emissora CW com cartazes e banners, distribuindo panfletos pelos EUA e até mandando simbólicos chocolates Mars aos escritórios dos executivos do canal. Entretanto, o mérito não é exclusivo dos fãs. Thomas, claro, foi a principal chave em todo o sucesso da série, que conta com personagens fortes, bem estabelecidos e, acima de tudo, reais.

Anos depois de deixar para trás sua vida como detetive particular, encontramos Veronica Mars (Kristen Bell) em Nova York, participando do processo de seleção para um grande escritório de advocacia. Centrada e decidida, é certo que ela seria uma das principais escolhas para o trabalho - no entanto, um recente crime a leva de volta para Neptune, cidade que havia deixado junto de seu turbulento passado.

Veronica era uma adolescente problemática, pária em todos os círculos sociais da escola em que estudava, compulsiva e cheia de si, assim como qualquer outro jovem. O universo de Neptune simula uma Beverly Hills fictícia, onde os ricos e famosos se estabelecem. Nesse cenário é introduzido o caso que a leva de volta, o caso que mudará a vida que ela batalhou para conquistar.

O assassinato que estabelece a visita à cidade natal envolve seu ex-namorado Logan (Jason Dohring), com quem ela tinha uma relação instável desde a primeira temporada da série. Tido como principal suspeito do caso, Logan busca a ajuda de Veronica para que juntos eles escolham o melhor advogado de defesa. O curto tempo que ela fica na cidade é o suficiente para que a "força magnética de Neptune a traga de volta", como bem diz seu pai Keith (Enrico Colantoni).

A bela construção de personagens só fica mais acentuada devido ao relacionamento entre eles. Os Mars são como dois velhos amigos, dão conselhos sérios um ao outro em frases curtas e diretas em meio a brincadeiras; Dick (Ryan Hansen) parece só saber se comunicar através de piadinhas machistas e white trash; ácida, Veronica faz comentários pertinentes sobre pessoas que são irrelevantes para o desenrolar da história, mas se provam necessárias para estabelecer os machucados emocionais deixados na moça quando ainda jovem.

Fica claro que não era a vida executiva em Nova York com o bom moço que Veronica queria para si. Ao topar pela primeira vez com Logan é perceptível o efeito que ele ainda tem sob a adolescente dentro dela, que prefere o inconsequente ao seguro. É curiosa sua auto comparação frequente a um viciado em drogas, sempre mencionando o vício da mãe em bebidas alcoólicas. "Você conhece o drogado que sabe ser moderado? Nem eu", diz ela depois de voltar a ativa como detetive particular. Não era sua intenção mas, involuntariamente, era o que mais queria e sentiu falta durante seus nove anos de ócio investigativo.

Extremamente expositivo pelo simples fato de não ser um filme exclusivo para fãs, o longa não deixa a desejar no quesito de apresentação e construção de personagens. A trama, porém, fica em segundo plano para que outros aspectos sejam explorados. Veronica Mars quebrou barreiras como o primeiro filme dos EUA a ser lançado simultaneamente nos cinemas e em serviços on demand, além de todas as suas conquistas como projeto de financiamento coletivo. Ainda assim, o futuro de Veronica e da franquia em si permanece incerto. A história, muito bem amarrada ao final, deixa apenas uma ponta solta; assim como fica em aberto a possibilidade de uma continuação. Uma coisa é certa: marshmallows devem estar satisfeitos. [Natália Bridi]

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Crítica I Need For Speed   (13/03/14)

Need For Speed, o jogo, não tem história alguma. A série publicada pela Eletronic Arts  é um sincero game de corrida feito para fãs de velocidade. Para levar a marca ao cinema, a Disney escolheu adicionar drama e coleguismo às disputas, além de chamar Aaron Paul, o Jesse Pinkman de Breaking Bad. Se não torna o longa uma obra-prima, a opção do estúdio ao menos faz de Need For Speed um filme de carros diferente para os tempos atuais.

A trama não chega a ser profunda ou um estudo de personagem, mas há muito da paixão por automóveis vista em filmes da década de 1960/70 como Bullit, com Steve McQueen. A equipe da oficina comandada por Tobey Marshall (Paul) cultua astros de corrida antigas e é devota, principalmente, aos muscle cars - um deles, aliás, é tão protagonista quanto Paul. Tal apreço é também demonstrado pelo diretor Scott Waugh, que filma as perseguições de maneira crua e com ar quase amador.

Essa abordagem torna o filme mais pessoal, mais documental que as divertidas    mas mirabolantes sequências de Velozes e Furiosos, por exemplo. Em uma cena crucial de capotamento, Waugh coloca a câmera dentro do cockpit e deixa o impacto do acontecimento tão aflitivo quanto cenográfico. Os ângulos escolhidos dão mais preferência a beleza das máquinas e aos cenários em vez das manobras e consequentes explosões. Toda a sequência de Utah, feita entre cânions e desertos, mostra bem essa diferença - Need for Speed ostenta seus carros e paisagens, não os pilotos e habilidades ao volante.

A parte humana, quando focada, demonstra o pior do filme. Não há como negar que há entrosamento no elenco, mas os diálogos não são o melhor exemplo de escrita de Hollywood, para dizer o mínimo. E por mais que tente, Aaron Paul não consegue deixar de repetir os trejeitos de Jesse Pinkman a cada cena. Irão ainda alguns projetos até ele perder o personagem. Não por acaso tudo é melhor sem falas, apenas    com os bonitos enquadramentos escolhidos.

Não será dessa vez que os fãs de games verão uma franquia produzir um grande filme. Por outro lado, Need for Speed mostra uma nova maneira de enxergar esse tipo de adaptação, misturando referências cinematográficas ao legado da série. A tentativa é válida. [Thiago Romariz]

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Crítica I  Ela    (04/01/14)

Spike Jonze cria seu sci-fi romântico e coloca Scarlett Johansson como a musa do futuro

Em A Vida Secreta de Walter Mitty, o protagonista interpretado por Ben Stiller tem uma paixão platônica por uma companheira de trabalho, mas decide uma aproximação menos direta, utilizando um serviço online de encontros. Ele passa, então, a viver aventuras sem fim, com a finalidade única de ter um perfil capaz de impressionar sua Julieta. O cenário criado por Spike Jonze em Ela (Her, 2013) é diferente: e se existisse um mundo em que você não precisasse fazer tudo isso para conquistar sua cara-metade? E se tudo o que bastasse fosse  criar alguém que te entenda do jeito que você é, vá aprendendo dia após dia como te fazer feliz e a ser feliz também?

O roteiro de Jonze mostra Theodore, um escritor deprimido (Joaquin Phoenix), ainda dolorido com a separação daquela que ele julgava ser a mulher de sua vida (Rooney Mara). Infeliz com tudo ao seu redor, ele acaba equipando seu computador com um novo sistema operacional, que possui uma inteligência artificial que aprende e evolui baseado nas respostas que recebe, as intonações de voz, os suspiros e tudo mais. Detalhe, o tal computador que ele liga diretamente no fone de ouvido se chama Samantha e tem a voz rouca de Scarlett Johansson, que fica sussurrando palavras ao seu ouvido. Bastam algumas atualizações para que Theodore volte a sorrir e esteja completamente apaixonado.

Ela recebeu cinco indicações ao Oscar 2014 - Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original ("The Moon Song", de Karen O) e Melhor Design de Produção. Joaquin Phoenix, com seu bigode, óculos e insinuante nariz, parece aquelas máscaras de criança, mas sua atuação é impecável. Se Sandra Bullock foi indicada por Gravidade em um papel em que basicamente reage à voz de George Clooney, Phoenix poderia muito bem estar entre os cinco da categoria de Melhor Ator. E não foi exagerada também a campanha que o estúdio fez para que Scarlett conseguisse também uma vaga no prêmio da Academia de Artes de Hollywood. Sem aparecer em cena é possível "ver" o poder de sua atuação como a temida máquina que pensa e sente.

O roteiro vai mostrando - e questionando - o que é um relacionamento. Theodore poderia mesmo estar apaixonado por um sistema operacional? E quanto à paixão demonstrada pela máquina, existe algo de real ali ou tudo não passa de uma programação avançada? Vale aqui o exercício: poderiam os responsáveis pelo tal sistema operacional inteligente ter criado algo realmente emotivo ou será que eles apenas montaram scripts que ensinem ao computador a aceitar os defeitos de seus usuários e aceitá-los como eles são, criando assim um mundo perfeito? Aliás - última questão - é realmente perfeito o mundo em que a pessoa que você mais confia e gosta concorda com tudo o que você faz?

Disfarçado como um romance futurista, Ela vai enchendo a tela de questionamentos contemporâneos. Alternam-se nos 126 minutos do filme risos que vêm da graça e outros que vêm do constrangimento, da verdade que aquela situação estranha pode acontecer a qualquer momento com você aqui e agora, e não apenas naquela Los Angeles cheia de prédios. Afinal, apesar de toda a cara de ficção científica que Jonze deu ao filme, trata-se de mais uma história sobre relações e uma discussão sobre o que é real e o que é virtual neste mundo digital em que as interações acontecem cada vez mais através da tecnologia? [Marcelo Forlani]

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Crítica I  '12 Anos de Escravidão' é o melhor e mais necessário filme em muitos anos    (04/01/14)

Raul Juste Lores 
De Washington

Só mesmo a bilheteria modesta e o tema indigesto para plateias adormecidas com pipoca fazem "12 Anos de Escravidão" ter que competir com "Gravidade" pelo Oscar de melhor filme. Seria como pôr Meryl Streep e Sandra Bullock no mesmo patamar.

O ator Chiwetel Ejiofor em cena do filme '12 Anos de Escravidão', de Steve McQueen

"12 Anos...", dirigido pelo britânico Steve McQueen ("Shame"), é o melhor filme de Hollywood, e o mais necessário, em muitos anos.

"É o primeiro filme que torna impossível continuar vendendo mentiras e mistificações sobre escravidão por mais de um século", escreveu a crítica de cinema do "New York Times" Manohla Dargis.

"Levou um século para vermos o impacto do chicote em um corpo nu", redigiu David Thomson, da revista "New Republic", lembrando a condescendência com os negros desde "E o Vento Levou".

O longa é baseado na autobiografia publicada em 1853 do violinista Solomon Northup (interpretado por Chiwetel Ejiofor), negro livre em Saratoga, Estado de Nova York, que é sequestrado enquanto se apresenta em Washington e vendido como escravo na Louisiana.

Não há senhores de escravos bonzinhos, epifania de personagem branco que descobre que a escravidão (ou o racismo) é algo errado, nem flerte entre o homem branco e a escrava negra. Mostra, sem meio tom, os estupros constantes do senhor de escravos Epps (Michael Fassbender) contra sua favorita, Patsey (Lupita Nyong'o).

A mulher de Epps, com ciúmes de Patsey, agride repetidamente a "rival", nessa nada romantizada "Casa Grande e Senzala" americana.

Northup aprende cedo que a submissão é requisito para se viver e a esconder que é alfabetizado. Tampouco vira melodrama — o intelectualizado Northup quer realmente entender o sistema que permitiu a lógica da escravidão.

A autobiografia levou 160 anos para chegar às telas e custou apenas US$ 20 milhões, equivalente ao cachê de um único astro hollywoodiano. A participação de Brad Pitt abriu bolsos.

"12 Anos de Escravidão" pode render o primeiro Oscar já dado a um diretor negro. Até pode perder para a linguagem new age no concorrente "Gravidade", mas já é o filme imperdível do ano.

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Crítica I  Jogos Vorazes - Em Chamas   (15/11/13)

Em Jogos Vorazes - Em Chamas (The Hunger Games - Catching Fire) , segundo capítulo da quadrilogia Jogos Vorazes  (a adaptação do terceiro livro será dividida em dois filmes), Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) lida com as consequências do que foi forçada a fazer pelo governo no primeiro longa.

Essas consequências são justamente o que movem a trama, tanto para a personagem como para a nação sob um estado totalitário controlado pela luxuriante e poderosa Capital. Ao mesmo tempo em que Katniss e Peeta Mellark (Josh Hutcherson), os vitoriosos tributos dos 74º Jogos Vorazes, descobrem durante uma turnê pelos 12 distritos de Panem que sua união e a rebeldia dela despertaram um sentimento dormente há décadas no povo, percebem também que o terror ainda está longe de acabar. Afinal, além de ser agora parte do sistema que ela despreza, a heroína tornou-se também um símbolo de esperança e, ciente disso, o presidente Snow (Donald Sutherland) não poupará esforços para derrubá-la.

As consequências trazem responsabilidades - e a temática do futuro distópico, em que cada cidadão entrega-se à luta diária da sobrevivência, ganha contornos mais épicos enquanto o governo cerceia a liberdade de expressão com pulso firme, despachando batedores às ruas para controlar manifestações e manter-se no poder.

Como únicos deméritos da produção estão os novos Jogos Vorazes - quase uma repetição, ainda que necessária, do primeiro - e a ausência de um início ou fim, já que se trata de um capítulo intermediário. Para que o filme seja compreendido, é necessário um comprometimento do espectador à la O Império Contra-Ataca ou O Senhor dos Anéis: As Duas Torres.

De qualquer forma, Jennifer Lawrence segue dominando a tela como a confusa protagonista, que procura seu lugar no mundo enquanto ele desmorona ao seu redor (as frequentes visitas solitárias ao único lugar que ela controla, a floresta além da fronteira, são simbólicas disso). Jogos Vorazes - Em Chamas é excelente em sugerir o que está acontecendo enquanto a própria protagonista tenta entender a cadeia de eventos que colocou inadvertidamente em movimento. A atriz tem companhia de peso, ao ter mais tempo ao lado de Sutherland, Woody Harrelson (que retorna como Haymitch Abernathy) e Philip Seymour Hoffman, excelente adição ao elenco. O ator oscarizado interpreta o diretor geral dos Jogos Vorazes, um personagem cheio de dualidade que encontra em Hoffman seu intérprete perfeito.

Com o sucesso do primeiro filme, o orçamento da série dobrou - e os 140 milhões de dólares que Jogos Vorazes - Em Chamas custou são bastante perceptíveis em tela. A sequência, agora dirigida por Francis Lawrence (Água para Elefantes), enche os olhos e é mais elaborada em todos os sentidos, mas não é a pirotecnia o que chama a atenção.

O subtexto do universo criado por Suzanne Collins fica ainda mais óbvio no filme, mas lamentavelmente ainda deve passar metros acima das cabeças de grande parte do público, que está ali, ironicamente, apenas pelo espetáculo que ele representa. Apesar de tratar de abuso de poder, de direitos e deveres do estado, de sacrifícios pessoais, "pão e circo" e o papel do cidadão, lê-se por aí comentários do tipo "como seria legal viver em Panem", prova do estado da capacidade de raciocínio crítico de uma fração desta geração. Pelo que representa, Jogos Vorazes - Em Chamas merece uma análise de seus fãs que vá além das curvas dos belos jovens selecionados para o abatedouro midiático. Érico Borgo

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Crítica I  Kick-Ass 2   (18/10/13)

Em 2010 todo mundo ficou impressionado com o alto grau de violência gráfica de Kick-Ass - Quebrando Tudo e, principalmente, com a Hit Girl (Chloë Grace Moretz). Mas, sem medo de errar, dá para dizer que quem mais ficou impressionado com a agilidade daquela pré-adolescente foi o próprio protagonista do filme, o Kick-Ass (Aaron Taylor-Johnson). Prova disso é que ele passa a maior parte dos 103 minutos desta sequência tentando convencê-la a voltar à ativa.

Para quem não leu os quadrinhos e não viu o primeiro filme, um rápido flashback  para explicar a situação toda: depois que seu pai, Big Daddy (Nicolas Cage), é morto, ela é adotada pelo Detetive Marcus Williams (Morris Chestnut). Para tentar evitar o mesmo destino à menina, o policial faz de tudo para afastá-la das ruas e do combate ao crime. Tudo mesmo, inclusive colocá-la em contato com as meninas da equipe de cheerleaders da sua escola - o que rende uma boa cena que não estava nas HQs.

O arco da Hit-Girl neste segundo filme pode ser comparado ao de Kal-El no segundo filme do Superman estrelado por Christopher Reeve. Enquanto ela tenta se adaptar a uma vida de civil, um grupo de supervilões é montado. No comando está o ex-Red Mist (Christopher Mintz-Plasse), que agora quer ser chamado de Motherfucker. Enquanto isso acontece, Kick-Ass se junta a outros mascarados que andam pelas ruas de Manhattan para proteger a cidade e assim ajuda a formar a Justiça Eterna, grupo liderado pelo Coronel Stars and Stripes (Jim Carrey).

Bastante fiel ao segundo volume da HQ criada por Mark Millar e John Romita Jr., a história consegue trazer novos problemas e dramas aos personagens - o que é ótimo. É muito bom também ver que o bom humor dos diálogos se manteve, assim como as inúmeras citações ao mundo pop - de Will Smith e Homem-Aranha a Batman e Robin. E para finalizar temos de novo a violência, que desta vez é ainda mais exagerada, mas não a ponto de virar mais um filme gore nos cinemas. Juntando tudo isso, você tem em mãos a fórmula de Kick-Ass 2 (2013), que se espelha no que funcionou no primeiro, mas sem o estilo de Matthew Vaughn, que preferiu apenas assinar a produção enquanto Jeff Wadlow assumiu a direção.

Mais uma vez, Chloë Grace Moretz é a grande estrela. A menina, que agora tem 16 anos, chuta, pula, dá tiros e tem as melhores cenas de ação. É ela quem vai tentar treinar Kick-Ass no começo do filme. À Aaron Taylor-Johnson cabe o prêmio de melhor transformação do longa. Ele vai do nerd gordinho ao sarado com direito a tanquinho e tudo mais. Christopher Mintz-Plasse fica com o papel mais engraçado. Com suas roupas de couro e jeito de menino mimado, ele tem diálogos divertidíssimos, dignos de McLovin. Jim Carey, que saiu publicamente criticando o grau de violência do filme, deveria é ficar quieto, pois o projeto é bem claro desde a sua primeira página. Seu papel, junção de dois personagens das HQs, tem muito mais destaque do que nos desenhos de Romita Jr..

Quem queria mais mudanças com relação aos quadrinhos pode se decepcionar. Mas a verdade é que ao se prender no bom texto de Millar e ao que funcionou no primeiro filme, Wadlow deve conseguir manter o sorriso por baixo das máscaras dos fãs que queriam apenas mais do mesmo. [Marcelo Forlani]

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Crítica I  Red 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos   (07/06/13)

"Red 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos" é um veículo na medida para Bruce Willis. Escrito por Jon e Erich Hoeber com base nos personagens criados por Warren Ellis e Cully Hamner para a graphic novel "Red", este segundo longa com o herói dificilmente vai desagradar quem gostou do primeiro --e ainda aponta para mais uma continuação (já anunciada).

Catherine Zeta-Jones, Mary-Louise Parker e Bruce Willis em 'Red 2'

Desde o policial nova-iorquino John McClane, de "Duro de Matar", franquia inaugurada em 1988, Willis não encontrava um protagonista à altura de seu carisma.

No papel de Frank Moses, agente aposentado do serviço secreto americano, pode brilhar novamente com sua agradável canastrice.

"Red 2" segue a toada habitual das sequências dos filmes de ação: mais explosiva, violenta, engraçada e ágil.

O que resulta quase sempre em filmes que ultrapassam ou se aproximam do limite que separa a irreverência do ridículo.

Se esta segunda aventura não chega a ultrapassar tal limite, um pouco por causa da direção de Dean Parisot (ao mesmo tempo mais pobre e menos afetada que a de Robert Schwentke, do primeiro filme), há uma série de exageros que retomam o espírito anteriormente perseguido.

Mary-Louise Parker continua com uma personagem à beira da estupidez, mas dá conta do perigo mais uma vez. Helen Mirren está novamente soberba como o contraponto à personagem de Parker: uma mulher forte e demolidora, verdadeiro perigo para os inimigos.

John Malkovich está menos louco e mais efetivo nas cenas de ação, e o bonachão Brian Cox arrasa como o conquistador russo Ivan.

As novidades desta continuação são Catherine Zeta-Jones, como a bela "kriptonita" do herói; Anthony Hopkins, como o cientista louco; e o ator coreano Byung-hun Lee, como o temido assassino profissional Han Cho Bai.

Com tantos bons atores se divertindo em cena, fica difícil reclamar. Mas, se "Red 2" está bem acima do quinto episódio de "Duro de Matar" (que estreou no início do ano), e de uma maneira geral aponta para uma salutar irreverência dentro do cinema de ação, perde alguns pontos quando comparado ao primeiro longa. Folha

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Crítica I  Depois da Terra  (07/06/13)

O prólogo didático que abre Depois da Terra (After Earth) explica que, no futuro, a humanidade vive num outro planeta, caçada por uma raça alienígena bestial que fareja o medo dos terráqueos. O lendário general Cypher Raige (Will Smith) aprendeu a não ter medo - o que o torna invisível aos aliens - mas seu filho de 13 anos, Kitai (Jaden Smith), não tem o mesmo autocontrole.

Quando a nave dos dois cai na Terra, à mercê de mudanças climáticas extremas e espécies predadoras, cabe a Kitai aprender a dominar seu medo. Treinar a mente para se impor sobre o mundo físico é o preceito de frente da Cientologia - aquele que, por se confundir com a auto-ajuda, mais serve para atrair novos adeptos - e Depois da Terra transpira a religião do começo (a hierarquia em rankings, as "entrevistas" do pai com o filho) ao fim (o vulcão, que simboliza as tempestuosidades do mundo, era uma imagem cara ao criador da Cientologia, L. Ron Hubbard).

Mas com exceção de uma cena específica - o pai, inutilizado com as duas pernas quebradas, se recusa a tomar um analgésico, pois os efeitos colaterais o impediriam de guiar seu filho - que ecoa a perigosa oposição da Cientologia à farmacologia estabelecida do século 20, não há nada em Depois da Terra que seja acintosamente dogmático. Mesmo porque as duas premissas do filme - dominar o medo e alcançar o pai - estão aí se repetindo na ficção há séculos, muito antes de Hubbard ter nascido.

Em entrevistas, Will Smith, cientologista inconfesso, diz que fez Depois da Terra (seu primeiro crédito como argumentista no cinema) para ensinar seu filho Jaden a sobreviver sozinho em Hollywood. Cada um com suas egomanias... A questão é que o filme se ressente desse peso dado ao filho; Jaden tem lampejos de atuação, em alguns momentos convence mas em outros sua falta de treinamento de ator fica visível. Já Will Smith, que encontra um tom de interpretação ideal para o seu personagem, entre a frieza e a "quase emotividade", tem uma das melhores atuações de sua carreira - o que acaba evidenciando mais as deficiências do filho.

E então começa a ficar claro que há uma dissonância, nos filmes do diretor M. Night Shyamalan desde Fim dos Tempos, entre o que o cineasta propõe, em termos de experiência sensorial, e o que seus atores conseguem ver e transmitir. Com o tempo, os longas de Shyamalan não têm perdido apenas o senso de humor - eles têm jogado sobre os ombros dos atores, cada vez mais, o fardo de conduzir o espectador por universos ultrassensíveis (sentir o invisível no ar que mata em Fim dos Tempos, achar a paz do zenbudismo em O Último Mestre do Ar, dominar os sentidos em Depois da Terra). É um projeto ambicioso de cinema, embora não pareça, e que infelizmente resulta incompleto, filme após filme.

Desses três últimos longas, Depois da Terra (que ironicamente é o que tem mais o perfil de projeto de encomenda) talvez seja o mais satisfatório, porque as inseguranças de Jaden, ressaltadas pelos close-ups constantes, combinam com o arco do personagem. Além disso, as ameaças do mundo ultrassensível fluem melhor num contexto de suspense spielberguiano de um filme como Depois da Terra (Shyamalan sempre soube jogar bem com o nosso medo do que pode haver no extracampo, e desta vez, numa Terra selvagem, ameaças não faltam) do que numa aventura supostamente infantil como a adaptação de Avatar.

Agora, identificar o que torna esses filmes incompletos é o verdadeiro desafio. Sem dúvida, Shyamalan tem tateado um novo caminho, um tipo de cinema mais arrojado, que pode ser frustrante porque não aceita meios termos, "meios sucessos". Convencionou-se dizer na mídia que os filmes do cineasta deixaram de funcionar quando a fórmula da reviravolta final se esgotou. Talvez seja o caso de reexaminar nossos conceitos do que significa "funcionar". Marcelo Hessel

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Crítica I  A Hora Mais Escura (15/02/13)

Personagens como o desarmador de bombas de Guerra ao Terror parecem mortos-vivos no campo de batalha moderno porque são espectros de guerras passadas, presenciais. Desde que a primeira ofensiva dos EUA no Iraque foi transmitida na TV como fogos de artifício ao longo da madrugada, não se fazem mais guerras como antes - guerras que marcavam a história do mundo por sua fisicalidade.

Hoje os EUA discutem como usar drones teleguiados em combate, enquanto o país se comove com a morte de um dos seus últimos heróis de guerra, Chris Kyle, o "Sniper Americano". Na Primeira e na Segunda Guerra, atiradores de elite eram párias, odiados em todo exército por sua impessoalidade; hoje são ranqueados pela eficiência. A questão é: se a guerra deixa de ser uma forma desordenada de horror e passa a ser um calculado procedimento cirúrgico - se deixa de ser um trauma, enfim - como os homens aprenderão a evitá-la?

Esse é um dilema que paira sobre os dois filmes de "guerra moderna" de Kathryn Bigelow, tanto Guerra ao Terror quanto A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty). E como boa diretora de filmes movidos pela ação, Bigelow sabe que não precisa    atacar o dilema textualmente; ele se manifestará nas decisões e nos atos de seus personagens. A Hora Mais Escura evita formar julgamentos sobre os meios que levaram à morte de Osama Bin Laden porque sua intenção é justamente desafiar seus personagens - tecnocratas ensinados a serem "espertos", como diz o personagem de James Gandolfini - a fazer essa avaliação por si mesmos.

E em que condições? Metade do extenso elenco de A Hora Mais Escura é formada por técnicos da CIA que parecem saídos dos laboratórios de CSI. A primeira arma que a protagonista Maya (Jessica Chastain) ganha é um PC numa sala empoeirada no Paquistão. Assim como o desarmador de bombas do outro filme, ela inicialmente também parece à deriva, mas Maya rapidamente prova ser uma profissional de elite: menos por seu talento de caçar talibãs e mais por seu    decidido perfil corporativo. Para se igualar aos homens, usa palavrões; para anular a rivalidade, aproxima-se da outra única mulher de alto escalão na equipe.

De novo, assim como o desativador de bombas, que troca a família pelo Iraque, Maya não tem namorado, família, vida pessoal. A principal transformação física que a heroína atravessa no filme é a mudança do seu penteado, que fica domesticadamente liso, como uma boa burocrata, quando ela se vê presa na rotina de Washington. A cena em que Maya é emboscada pelos talibãs parece estranha, deslocada, porque nos acostumamos com a guerra mediada, de gabinete, e aquele tipo inesperado de situação, aquele encontro ao vivo, talvez soe até como um engano. Por extensão, mesmo as cenas de tortura são regidas por uma normalidade exagerada - com o torturador usando como argumento    a mais básica das lógicas, "você mente, eu te machuco" - que as faz parecer representações de tortura, e não tortura de fato.

A interpretação de Jessica Chastain encontra um tom ideal ao longo do filme, oscilando entre a frieza e a desolação, para nos colocar nesse isolamento de Maya, que é também a situação de todo espectador das guerras tecnológicas televisionadas. Entre videotapes de interrogatórios e gravações de escutas telefônicas - entre caminhos de cabos e servidores de Internet, protagonistas que a câmera de Bigelow faz questão de ressaltar - nos vemos obrigados a confiar num  único recorte da realidade, aquele que os fragmentos midiáticos nos dão.

Quando enfim chega a hora do documental, da fisicalidade de fato - a operação    contra Bin Laden - Bigelow traz essa imagem bastante simbólica da "hora mais escura" ("zero dark thirty" é um termo usado pelas forças armadas dos EUA para se referir a uma hora não especificada da madrugada em que o céu ainda está todo escuro). No filme, isso acaba representando um vácuo, como se toda a obsessão midiatica (a overdose de vídeos e fitas na busca por um relato    fidedigno) se anulasse, e no escuro o mundo voltasse a ser uma experiência    que só pode ser compreendida quando vivida.

Diante da oportunidade dessa experiência, os homens teriam de novo uma    noção moral da guerra? No filme, ao perceber que matou Bin Laden, um dos oficiais congela diante dos demais. Fica sem reação, em boa medida, porque é um dos poucos personagens de A Hora Mais Escura a perceber de verdade que, naquele momento, está escrevendo a História - um fator que nunca entra nos cálculos de metas da tecnocracia. MH

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Crítica I  Em Curvas da Vida  (23/11/12)

Filme do estreante diretor Robert Lorenz usa o beisebol para criticar o excessivo papel da tecnologia na vida moderna

Brad Pitt concorreu ao Oscar de Melhor Ator neste ano por “O Homem que Virou o Jogo”, no qual interpreta um gerente de time de beisebol que transforma o esporte apostando suas fichas em uma ideia nova e ousada: escolher os jogadores com base em um sistema de estatísticas, deixando de depender do trabalho dos tradicionais olheiros. Em um filme sem vilões, o antagonista de Pitt era a resistência à mudança de grande parte dos demais personagens que diziam: “Você não pode montar um time com um computador”.

Em “Curvas da Vida”, outra produção norte-americana sobre beisebol que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta (23), Clint Eastwood enfrenta o inimigo oposto: a ideia de que a tecnologia pode substituir o talento e a intuição, aquilo que há de único nos seres humanos - ou, no caso, nos experientes profissionais que sabem identificar novos talentos do esporte como dados ou máquinas jamais conseguirão.

Eastwood é Gus, veterano olheiro de um importante time de beisebol pressionado a provar sua relevância diante das inovações tecnológicas propostas por um funcionário mais jovem. A prova de fogo é uma viagem à Carolina do Norte na qual tem a missão de avaliar se um badalado jogador da liga estudantil deve ou não ser contratado. Gus tem um problema adicional: seu principal instrumento de trabalho – os olhos – dão sinais de cansaço e ele, aos poucos, enxerga cada vez menos.

Quem o ajuda é a filha, Mickey (Amy Adams), uma bem-sucedida advogada que se ressente do fato de que o beisebol – e não ela – foi a prioridade da vida de seu pai. Ao mesmo tempo, Mickey não consegue ignorar o carinho e a preocupação com Gus, de quem herdou o amor pelo esporte e o jeito durão de quem não leva desaforo para casa. Atendendo ao pedido de um amigo da família, ela topa acompanhar o pai na viagem, uma ideia à qual ele, naturalmente, é contra. Naturalmente, também, a temporada na Carolina do Norte se transforma em uma oportunidade para que os dois lidem com os problemas do passado e se aproximem um do outro.

Vários dos temas de “Curvas da Vida” já foram abordados na filmografia recente de Eastwood. Em “Cowboys do Espaço” (2000), por exemplo, ele interpretou um astronauta aposentado que, idoso, embarca em uma missão para consertar um satélite a despeito das reservas dos jovens colegas de profissão. Seu personagem em “Menina de Ouro” (2004), Frankie, forja com Maggie, a lutadora de boxe interpretada por Hillary Swank, a relação de pai que não tinha com a própria filha. E em “Gran Torino” (2008), Eastwood é um velho rabugento e incomodado com as mudanças sociais ao seu redor que encontra no contato com o vizinho imigrante a chance de aprender a ser mais tolerante.

Diferentemente de todos esses filmes, “Curvas da Vida” não foi dirigido por Eastwood, mas por Robert Lorenz, seu assistente há cerca de duas décadas – na primeira vez em que o octogenário artista americano atua para outro diretor desde “Na Linha de Fogo”, lançado por Wolfgang Petersen em 1993.

Estreante, Lorenz consegue fazer um filme correto e por vezes capaz de genuinamente entreter o espectador, especialmente aquele que for fã de Eastwood e estiver ansioso por uma nova chance de vê-lo em cena. Mas “Curvas da Vida” não tem a mesma força emocional das produções de Clint, em parte porque Lorenz falha na construção de personagens, justamente um dos pontos fortes de seu mentor.

Os típicos heróis dos filmes de Eastwood são solitários e marcados por um passado que o público conhece aos poucos e, às vezes, não totalmente – ninguém sabe, por exemplo, o que causou o rompimento entre pai e filha em “Menina de Ouro”. Se Clint gosta de deixar dúvidas e desenvolver a narrativa em ritmo lento, Lorenz, ao contrário, quer contar tudo e tem pressa. Por isso, elege uma ou duas cenas para que cada personagem faça um breve resumo de sua trajetória e explique seus sentimentos e ações, numa espécie de “briefing" ao espectador que resulta em um filme previsível e pouco desafiador.

Da mesma forma, a promissora discussão sobre a passagem do tempo e as implicações da vida moderna perde força ao se basear em uma fórmula excessivamente esquemática, que demoniza a tecnologia, sem meio-termo. Na temporada que passa ao lado do pai, Mickey questiona o seu estilo de vida, a correria do escritório, a solidão no apartamento perfeitamente decorado, a dependência em relação ao computador da Apple que leva na mala e ao smartphone que a acompanha por toda parte. Conforme as roupas caretas de executiva são substituídas por informais camisas xadrez, Lorenz parece defender a volta ao passado e à simplicidade como uma espécie de salvação. Fosse menos simplista, sua proposta seria mais eficaz.

Curioso mesmo é notar que, para fazer essa ferrenha defesa do antigo, “Curvas da Vida” tenha que ceder à fórmula juvenil e escalar o astro pop Justin Timberlake como Johnny, um olheiro novato que se apaixona por Mickey e vence a distância emocional imposta por ela com uma dança em um bar country e um mergulho noturno no rio, cenas típicas de um episódio de “Dawson’s Creek” (ou seja lá qual for a série atual preferida dos adolescentes).

Numa Hollywood cada vez mais obcecada pela juventude e bancada pelos espectadores mais novos, um filme protagonizado por um homem de 82 anos, sem efeitos especiais ou super-heróis precisa buscar apelo em dois jovens e bonitos atores que troquem diálogos rápidos e frases espertinhas com referências às irmãs Kardashian. Ah, os novos tempos.  Luísa Pécora

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Crítica I  A Saga Crepúsculo - Amanhecer - Parte 2   (15/11/12)

Depois de quatro filmes sem fazer nada, apenas amando e sendo amada (ora por Edward, ora por Jacob), Bella é uma mulher completa: é esposa, mãe e vampira. A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 2 encerra a confissão bilionária de Stephenie Meyer, retomando a  necessidade feminina de ser, não apenas amada, mas preenchida por outro, não importa se humano, vampiro ou lobisomem.

Como é bom ser vampiro!

Vampiros não envelhecem, não dormem, não cansam, não sentem frio ou calor. A primeira parte do filme é dedicada a apresentar a irrelevância de ser apenas humano. Depois de 18 anos de mediocridade, Bella se torna forte e insaciável - "Como vamos conseguir parar?", questiona depois de descobrir o sexo sobrenatural.  Ela nasceu para ser vampira. Uma vocação tão clara que, no ápice do vampirismo solar da franquia, a personagem logo consegue controlar sua sede por sangue humano.

De donzela em perigo, Kristen Stewart passa a ter uma missão: proteger a filha, Renesmee (Mackenzie Foy), dos malvados Volturi. Para defender a menina, novos personagens são introduzidos, expandindo também o conceito de vampirismo x-men criado por Meyer. Além de visões do futuro e leitura de pensamentos, chegam vampiros elétricos,  seres que absorvem sentidos e manipulam visões. Bella, como uma boa mãe e esposa, tem o poder de bloqueio, da proteção do lar.

Nem os poderes, nem os novos vampiros, contudo, conseguem dar corpo à rasa mitologia da saga. Egípcios, irlandeses, índios e até mesmo tradicionais vampiros da Transilvânia são apenas um apanhado de sotaques forçados e caracterizações clichês. Eles estão lá como acessórios, para preencher vazios, não para dar consistência à trama.

Um cinema de outros tempos

Toda a Saga Crepúsculo representa um retrocesso cinematográfico, assumindo uma inocência dos primórdios do cinema falado. Do roteiro de Melissa Rosenberg à montagem, anos de evolução e desenvolvimento são esquecidos e uma coleção de close-ups marca bem o rosto das estrelas para o público - os atores são maiores que os personagens  ou os  diálogos.

Em Amanhecer  - Parte 2 essa ingenuidade fica clara com a introdução de uma Renesmee feita em computação gráfica.  A ideia do diretor Bill Condon era tornar verossímil o rápido desenvolvimento da personagem, mantendo os traços de Mackenzie Foy, que hoje tem 12 anos, desde o berço. O resultado é cômico (assim como são hoje os efeitos de filmes antigos), adicionando mais um elemento ao título de "tão ruim que é bom" que a franquia já conquistara com a corridinha e o brilho vampírico, os lobisomens sem escala e as maquiagens teatrais.

A Renesmee digital fica ainda mais estranha sobre a proteção de Jacob. O lobo trocou a mãe pela filha graças ao imprinting, termo usado por Meyer  para justificar o amor à primeira vista na matilha. Nada é tão complexo quanto aparenta, contudo. O capítulo final continua fiel à receita dos seus predecessores: depois de 115 minutos de didatismo (pontuado pela trilha sonora e pela narração em off de Bella), não acontece nada.

Nem bons atores como Michael Sheen (Aro, o líder dos Volturi), Lee Pace (o vampiro Garrett) ou Dakota Fanning (a malvada Jane) conseguem dar corpo ao filme. Quando seus personagens começam a ganhar tridimensionalidade, são cortados. É preciso não perder o foco no amor.

Para sempre

Stephenie Meyer expôs ao mundo que nem todas as mulheres querem independência, carreira, igualdade de gêneros. Grande parte quer apenas amar e ser amada e é essa a fonte dos bilhões da Saga Crepúsculo. Nada de heroínas emancipadas, apenas mulheres que encontram em outra pessoa sua razão de ser. Basta saber, se esse amor que não divide ou completa, apenas absorve o outro, vai sobreviver à eternidade estampada nos cartazes do filme. Natália Bridi

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Crítica I  Atividade Paranormal 4   (19/10/12)

Não há um gênero condizente com Atividade Paranormal 4 (Paranormal Activity 4). A tensão característica dos suspenses não é criada, o pânico recorrente dos filmes de terror não aparece e não há alívio cômico suficiente para ser uma comédia. São 95 minutos que se preocupam apenas em perpetuar uma das séries mais lucrativas da história do cinema, mecanicamente.

Partindo do final do segundo longa da franquia, quando Katie (Katie Featherston) e o bebê Hunter desaparecem, Atividade Paranormal 4 conta a história de Alice (Kathryn Newton), uma jovem de 15 anos que tem mania de andar com a câmera do celular/computador sempre ligada. Ao lado do amigo Alex (Matt Shivley), ela começa a acompanhar os passos do seu estranho vizinho, o garotinho Robbie, vivido por Brady Allen. Dar mais detalhes da trama, como faz a sinopse oficial, é uma forma de entregar as revelações nada surpreendentes do filme, que desde os primeiros minutos deixa claro quais reviravoltas escolherá.

Enquanto o elenco principal se mostra limitado mas não chega a irritar, os atores coadjuvantes conseguem piorar a situação do longa. Nas poucas cenas em que aparecem sozinhos, os pais de Alice não conseguem convencer ou transmitir alguma sensação legítima, afinal, há algo anormal acontecendo na casa. O roteiro de Christopher Landon carece de diálogos dignos do cotidiano de uma família comum e sequer deixa espaço para interpretações do espectador, fazendo sempre questão explicar o quê e por quê algo está acontecendo.

A inclusão de um cinegrafista na história do terceiro longa justificava uma fotografia menos amadora, com planos longos e que aumentavam as possibilidades para os repentinos acontecimentos em situações de câmera estática. Agora, os diretores Henry Joost e Ariel Shulman mantêm tal proposta com uma adolescente viciada em videochats, o que não sustenta o posicionamento milimétrico das câmeras ao redor da casa. Dessa forma, o estilo da filmagem se torna, acima de tudo, uma incoerência com o perfil da personagem. Se eles tivessem optado logo por retornar à estética amadora, resgatariam o principal trunfo do primeiro filme - mas no fim este quarto filme acaba ficando num meio termo indeciso.

Com aparições e assassinatos óbvios que não assustam os mais medrosos, além da narrativa didática, Atividade Paranormal 4 se sacramenta como o ponto mais baixo da série ao escolher um final aberto que atesta: o que importa é manter o espectador retornando a cada continuação. Thiago Romariz

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Crítica I  Looper - Assassinos do Futuro   (28/09/12)

Filmes de viagem no tempo são inerentemente confusos. Não existe um sequer que sobreviva ao escrutínio "científico" de suas improbabilidades. Mesmo assim, representam um dos mais fascinantes e divertidos subgêneros desse tipo de obra.

Looper - Assassinos do Futuro, felizmente, é um desses casos, uma ficção científica extremamente confusa, mas que usa esse entendimento difícil (talvez nem o próprio diretor e roteirista, Rian Johnson, saiba ao certo o que está acontendo) ao seu favor. Os diálogos divertidos e inteligentes frequentemente referenciam esse problema, tornando-os parte do entretenimento.Na trama, Joseph Gordon-Levitt vive um "looper", um executor da máfia especializado em dar cabo de vítimas que são despachadas do futuro. Seu trabalho é matar o "pacote" e dar sumiço no corpo (não existe lugar melhor para isso do que um tempo em que a vítima sequer existe). Viciado, desregrado e com um plano, o protagonista depara-se com o maior problema possível para um looper: quando sua vítima foge. Pior ainda... quando a vítima é ele mesmo - ou sua versão 30 nos mais velha (Bruce Willis).

Gordon-Levitt está perfeito como o jovem Willis.  É o ano dele depois de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Seu rosto foi modificado com próteses e maquiagem para ficar com o formato do ator veterano e ele usa com segurança as feições alheias, dando vislumbres da canastrice controlada de Willis, já tão conhecida (o filme só funciona tão bem nesse aspecto porque Willis tem trejeitos tão conhecidos, que Gordon-Levitt pode explorar).

Além do vai-e-vem temporal, o filme encontra espaço para outros subgêneros sci-fi, como o cyberpunk, que é inserido em um contexto de máfia retrô, com um governo ausente e gangues e indivíduos poderosos dominando o cenário. Há também mutação e outras surpresas interessantes, que culminam em uma mistura de De Volta Para o Futuro com Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança e - pasme - até Akira!

O diretor Rian Johnson equilibrou muito bem todos os elementos que tinha à disposição, dando personalidade inesperada a um grande filme de gênero, que certamente se destaca das demais esquecíveis tentativas de ficção contemporânea. E o melhor: não é remake, nem continuação ou adaptação. Érico Borgo

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Crítica I Dredd   (21/09/12)

Com a sala lotada e a presença do protagonista Karl Urban, aconteceu na Comic-Con 2012 a primeira exibição pública nos EUA de Dredd, a nova adaptação ao cinema da HQ do Juiz Dredd. Urban fez aquela média básica antes da sessão e disse que "esse filme é para vocês". É óbvio que ele falaria o que os fãs queriam ouvir, mas o fato é que o longa-metragem realmente é mais fiel ao gibi, com sua visão deformada da sisudez política de direita, do que o filme de 1995 com Sylvester Stallone, que amolece (e tira o capacete) o juiz.

No reboot, Joe Dredd (Urban) é um dos mais temidos juízes nas ruas de um futuro distópico de Mega City One, com o poder de impor a lei, sentenciar os criminosos e executá-los no local, quando necessário. Já Cassandra Anderson (Olivia Thirlby) nunca conseguiu passar no teste para tornar-se uma juíza, mas é aceita como recruta da corporação por seu excepcional poder de ler mentes. A trama se passa durante a primeira missão de Anderson ao lado de Dredd, no gigantesco bloco residencial Peach Trees, que o bando de Madeline Madrigal (Lena Headey, cuja falta de expressividade dá à personagem um fatalismo bastante envolvente), conhecida como Ma-Ma, controla do alto do 200º andar.

A paisagem lembra Distrito 9  - ambos os filmes foram rodados na África do Sul - mas quem viu o ótimo filme de ação indonésio The Raid (exibido no Festival do Rio ano passado como Batida Policial), de 2011, vai identificar algumas similaridades com Dredd, a começar pela trama localizada no conjunto de corredores e andares, onde os dois juízes são cercados por um exército rival. A estética também é parecida, com a ação crua (mas sem as coreografias de luta de The Raid) contrastando com a fotografia saturada, que acaba deixando os cenários - visivelmente baratos - com uma interessante cara de technicolor.

É difícil dizer se Pete Travis (Ponto de Vista) chegou a ver The Raid  antes de dirigir Dredd,  mas essa aproximação não tira do filme seu valor - na verdade, a ultraviolência que flerta o tempo todo com a caricatura é também uma marca da HQ. O roteiro de Alex Garland (conhecido pelos scripts dos filmes de Danny Boyle, A Praia, Extermínio e Sunshine - Alerta Solar), por sua vez, aproveita todos os bordões consagrados do juiz sem soar empolado demais, e dá espaço às muitas gangues de Mega City One (que nos quadrinhos espelhavam a variedade de bandos da juventude britânica nos anos 70 e 80) de uma forma orgânica, sem parecer que essas gangues "se fantasiam" à la Warriors.

O que pode dividir um pouco o público é o efeito estilizado que Travis arrumou para representar a viagem da droga Slo-Mo, central à trama do filme, que faz seus usuários enxergarem a realidade com uma fração da velocidade normal (por isso o nome "câmera lenta"). Parece um bullet time com LSD - que preenche e salta da tela na exibição em 3D (o longa foi rodado no formato) mas é um festival de luzes e cores que não exatamente combina com o tom do resto do filme. O que não dá pra negar é que Dredd, produção britânica de orçamento modesto e execução competente, tem liberdade para fazer esse tipo de escolha. E quando se está livre para escolher é que fica mais fácil ser fiel ao material original. Marcelo Hessel

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Crítica I  Os Mercenários 2   (31/08/12)

As piadas são mais engraçadas. As cenas de ação são melhores. A direção é mais segura. O roteiro é mais bem resolvido. Conta com maior número de astros. E até seu orçamento é mais robusto. "Os Mercenários 2" é, em todos os aspectos, maior e melhor do que o primeiro filme da franquia.

O primeiro "Os Mercenários" foi feito a partir de uma boa ideia: reunir no mesmo filme vários dos brutamontes de Hollywood, como Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren - além de pontas de Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

Em parte, deu certo. Lançado em 2010, "Os Mercenários" arrecadou US$ 275 milhões em todo o mundo (custou US$ 80 milhões). O lucro garantiu à sequência um orçamento maior, de US$ 100 milhões.

Mas "Os Mercenários" tinha falhas. O roteiro era pueril até para os parâmetros de filmes de ação; a direção de Sylvester Stallone era burocrática, não empolgava; e muitas das piadas não tinham a menor graça.

"Os Mercenários 2" corrige os erros do primeiro - e acrescenta algumas qualidades. Na direção, sai Stallone e entra Simon West (de "Con Air" e "A Filha do General"). O roteiro ficou nas mãos de Richard Wenk e do próprio Stallone. A mudança fez bem: ficou melhor costurado e apresenta menos buracos.

Stallone interpreta Barney Ross, o líder de um grupo de mercenários formado por Jason Statham (Lee Christmas), Dolph Lundgren (Gunnar Jensen), Jet Li (Yin Yang), Randy Couture (Toll Road), Terry Crews (Hale Caesar) e pelo novato Liam Hemsworth (Billy the Kid).

O filme inicia com os heróis em uma missão: eles têm de resgatar um empresário chinês no Nepal. Após exterminar um pequeno exército, o grupo encontra não apenas o chinês, mas o mercenário Trench, interpretado por Arnold Schwarzenegger.

Stallone e seu bando retornam aos EUA e, em seguida, mergulham em outra tarefa. Desta vez, a mando do misterioso Mr. Church, vivido por Bruce Willis.

A nova missão: reaver um objeto que está dentro do cofre de um avião que foi abatido em uma montanha na Albânia. Church manda, junto com o grupo de mercenários, a chinesa Maggie Chan, interpretada por Yu Nan.

O grupo encontra o objeto (um computador que tem a localização de uma mina de plutônio), mas cai em uma emboscada armada por bandidos liderados pelo criminoso Vilain, personagem de Jean-Claude Van Damme - que não estava no primeiro filme.

Vilain fica com o computador e, antes de fugir, provoca os mercenários com uma barbaridade sanguinária. É o mote para a vingança.

A ação se desenrola com, claro, armamentos poderosos, matança desenfreada, novos personagens (Chuck Norris é a grande surpresa) e várias sacadas (a piada de Chuck Norris com a cobra é ótima).

Se no primeiro filme Schwarzenegger e Bruce Willis apareceram por alguns minutos, em "Os Mercenários 2" a dupla ganha papeis de destaque. Até Dolph Lundgren, que sempre foi o mais canastrão e inepto dos atores de ação, arranca alguma empatia do público.

Para quem procura um filme de AÇÃO, "Mercenários 2" funciona - e bem. Entrega o que promete: tiros, explosões, sangue, piadas toscas e, até, algumas boas atuações. Thiago Ney

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Crítica I  Rock of Ages  (24/08/12)

Para o cinema a década de 1980 jamais vai acabar. Fonte de lucro e culto, o período é revisto agora no musical "Rock of Ages - O Filme", que ressuscita mais músicas do que atitudes rock‘n'roll ao longo de duas horas de cantoria.

De Def Leppard a Twisted Sisters, de Journey a Foreigner - com direito a canções escritas na década de 1990 -, a trilha sonora canibaliza o que ainda resta de memória daquela época em releituras que não seriam aplaudidas nem em karaokê.

A precariedade das interpretações poderia até passar batido não fosse esse musical um grande pastiche cômico mal resolvido, em cuja narrativa, em momento algum, qualquer personagem ou situação se compromete com a mais elementar veracidade em relação aos ícones a que se refere.

Os roqueiros daqui são limpinhos, não usam drogas, quando muito bebem. Tom Cruise encarna um exemplar dessa fauna, chamado Stacee Jaxx - músico à la Axl Rose que pretende começar uma carreira solo.

Como todo musical sobre o cenário musical, este parte do ponto de vista de novatos. Julianne Hough é Sherrie, garota que sai de uma cidadezinha rumo a Hollywood, onde espera fazer sucesso como cantora.

Por acaso, conhece Drew - interpretado por Diego Boneta, que entre 2005 e 2006 fez parte do elenco do televisivo mexicano "Rebelde". Ele a ajuda a conseguir um trabalho de garçonete no bar de Dennis (Alec Baldwin) - lugar icônico da não menos icônica Sunset Strip (no caso, uma reprodução cenográfica).

Drew e Sherrie seguem caminhos paralelos, mas em vias opostas: ambos, a seu modo, se prostituem, abrindo mão de seu sonho de cantar. Ah, tem também a velha máxima hollywoodiana de ir atrás de seus sonhos porque sempre dá certo (vide o nome de uma das músicas do filme: "Don't Stop Believing").

Talvez por isso, poucos personagens apresentem alguma nota real com uma gota de humanismo - como Mary J. Blige, dona de uma boate de striptease. A atriz não só traz verdade ao seu personagem, como parece ser a única pessoa realmente capaz de cantar no filme. Julianne, por sua vez, com sua voz anasalada, estaria mais confortável com as canções adocicadas de Britney Spears do que com o rock pesado.

"Rock of Ages" traz à mente outros musicais que recorreram a melodias já conhecidas para contar uma história. Mas está mais para "Mamma Mia" do que para "Across the Universe" - o que é paradoxal, se pensarmos que a trilha pop aqui teria mais a ver com os Beatles do que com o ABBA.

A direção de Adam Shankman é burocrática e serve apenas para o exibicionismo de Cruise, que vive uma espécie de versão sem graça do guru sexual que interpretou em "Magnólia" (1999).

Não se contentando com a cantoria, "Rock of Ages" levanta uma questão política. Catherine Zeta-Jones faz a mulher do prefeito, que toma as rédeas da campanha com o projeto de sanitizar a Sunset Strip e "mandar o diabo de volta para o inferno", como ela mesma diz.

Não é preciso muito esforço para descobrir por que ela odeia tanto Stacee. O ideal dela parece tomar conta do filme que, em sua essência, é limpinho e sem gosto. Chega a parecer uma versão de "Glee", apenas mudando acordes. Reuters

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Crítica I  Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge   (19/07/12)

Passaram-se quatro longos anos desde que Christopher Nolan mudou para sempre os filmes de quadrinhos com "O Cavaleiro das Trevas". Encabeçado pela atuação assombrosa de Heath Ledger como o Coringa, o segundo capítulo do diretor para a trilogia do Batman era tão bom que rompeu as barreiras de uma adaptação para quadrinhos – virou assunto sério, a ponto de entrar nas listas de melhores filmes de 2008 e motivar uma campanha para aparecer entre os indicados ao Oscar.

Se os outros trabalhos de Nolan já mostravam um talento impressionante, no intervalo ele ainda fez "A Origem" (2010), uma intrincada história de espionagem e sonho que, sem muito esforço, entra em qualquer lista de melhores filmes de ação das últimas duas décadas.

Pudera, portanto, que "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" tenha gerado tanta ansiedade. Fãs examinavam com paixão fotos do set e qualquer detalhe aparente da trama, mantida, como de costume, sob sigilo absoluto. Os trailers também ajudaram – não revelavam tanto, mas davam muita, muita água na boca.

Pois eis que a espera chegou ao fim. Em cartaz a partir desta sexta (20) nos Estados Unidos (no próximo dia 27 no Brasil), o filme encerra a trilogia com eficiência. Brilhantismo? Redenção? Apoteose? Infelizmente, não.

Verdade que o filme dificilmente conseguiria sustentar a expectativa gigantesca que o precedeu. Além disso, a comparação com os dois primeiros longas é inevitável. Depunha contra "Batman Begins" (2005) o plano mirabolesco de Ra's al Ghul (Liam Neeson) para destruir Gotham City, mas aquela era, acima de tudo, uma história de origem excepcional. E "O Cavaleiro das Trevas" é, sem sombra de dúvida, o melhor filme de super-herói já feito.

Dito isso, não é difícil afirmar que "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" tem o roteiro mais fraco dos três. O que não quer dizer que Nolan e seu irmão e parceiro, Jonathan, tenham perdido a mão – "Os Vingadores" e "O Espetacular Homem-Aranha" são coisa de pré-adolescente se comparados a qualquer um dos "Batman". A discussão sobre ética, moral, medo, caos e vingança dos filmes anteriores continua interessante e vigente, mas sem a mesma fluência. Nisso, se perdem velocidade e verossimilhança.

A história começa oito anos depois do final de "O Cavaleiro das Trevas". Batman assumiu a culpa pela morte do promotor Harvey Dent, que havia se transformado no Duas Caras. Com a cumplicidade do comissário Gordon (Gary Oldman), a verdade é mantida em segredo e a memória de Dent inspira uma luta vitoriosa contra o crime em Gotham. São tempos de paz e Batman saiu de cena, como planejava – Bruce Wayne, idem, recluso na mansão reconstruída da família.

A situação muda com os roubos de Selina Kyle, uma ladra habilidosa (Anne Hathaway, nunca chamada de Mulher-Gato), e o surgimento de Bane (Tom Hardy), um mercenário com idéias terroristas. É o suficiente para Batman deixar a aposentadoria de lado e voltar para as ruas de Gotham, onde é procurado como um criminoso.

Novidades valiosas no elenco são Marion Cotillard, no papel de Miranda Tate, conselheira do conglomerado das empresas Wayne e interesse amoroso do herói, e Joseph Gordon-Levitt como o valoroso policial John Blake, que lembra tanto a infância órfã de Bruce quanto os ideais de justiça do comissário Gordon no início de carreira.

Há boas cenas de ação – Nolan é mestre nelas –, embora nada tão surpreendente quanto as de "O Cavaleiro das Trevas". Falta, isso sim, um vilão. Coerente com o realismo com que o diretor transpôs o universo dos quadrinhos, Bane é forte, mas não de maneira sobrenatural. Um adversário imponente, também treinado por Ra's al Ghul, mentor de Batman, que oferece sério risco. Só.

Seria injusto tentar compará-lo com o Coringa. O problema é que Bane nunca realmente mete medo. Para suportar a dor, ele usa uma máscara que, nos melhores momentos, lembra a mandíbula de um animal raivoso. Nos piores, só abafa a voz do brutamontes. Tom Hardy se desdobrou para interpretá-lo usando só a expressão dos olhos e do corpo. A culpa não é dele: por trás do discurso revolucionário e o corpo bombado, sobra apenas um personagem mal desenvolvido.

A Mulher-Gato, mesmo não sendo chamada assim, teve melhor sorte. Ganhou bons diálogos, ótimas coreografias de luta (sempre usando salto alto) e uma dúvida cruel entre ajudar Batman ou a si mesma. Só ficou faltando uma motivação convincente.

Ressalvas à parte – ainda há algumas –, "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" funciona e, ufa, acaba de forma espetacular. Desenvolvida na sua maior parte em ritmo constante, a trama dispara na última meia hora das 2h45 de projeção. Resolvido às pressas? De certa forma, sim, só que o desfecho é tão cativante e satisfatório que não surpreenderam as palmas no final da sessão para a imprensa.

Christopher Nolan se tornou um grande cineasta filmando Batman e, por tabela, criou a melhor série de filmes já feita para um herói dos quadrinhos. Os aplausos são merecidos. A despedida não foi incrível como se esperava, mas esse é o preço de ter feito um filme tão bom como o anterior. Boa sorte para quem pôr as mãos no personagem no futuro – vai precisar.  Marco Tomazzoni

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Crítica I  Na Estrada  (13/07/12)

Li On The Road pela primeira vez não muito depois de ter mudado para Porto Alegre. Eu tinha acabado de começar a faculdade de jornalismo, ainda incerta sobre os rumos que queria tomar. Da leitura de uma edição da coleção L&PM Pocket, impulsionada pela empolgada introdução do tradutor Eduardo Bueno, veio a descoberta dos Beats, principalmente Allen Ginsberg, do jazz, e de um gosto novo por  ler, escrever, ver, descobrir.

Essa é a grande qualidade do livro de Jack Kerouac, a de despertar. Escrito em 1951, a lenda coloca a prosa espontânea parcialmente autobiográfica  em um rolo de papel de quase 40 metros, datilografado ao longo de três semanas sob os cuidados de muito café (adoçado com benzedrina) e acompanhado por uma rádio de Bebop (o estilo de jazz frenético  nascido da década de 40 que combina improvisação e virtuosismo). A publicação veio apenas em 1957, após inúmeras tentativas frustradas e um longo processo de edição, se transformando não apenas em um marco da Geração Beat - aquela que experimentou, liberou sexualmente, flertou com o budismo, rejeitou o materialismo e transformou a sociedade contemporânea, tornando possíveis muitas das liberdades básicas que desfrutamos hoje -, mas em um acontecimento importante de muitas vidas ilustres, como as de Bob Dylan,  Hunter S. Thompson, Tom Waits, Jim Morrison, Francis Ford Copolla, Johnny Depp e do diretor brasileiro Walter Salles.

É desse respeito, dessa noção de antes e depois causada pelo livro de Kerouac, que nasce o Na Estrada de Salles. A versão para o cinema da história de como o  alucinado vagabundo de Denver, Dean Moriarty (Garrett Hedlund), mudou a vida de Sal Paradise (Sam Riley), se apresenta  orgânica, fiel e inspirada. Da fotografia bela e certeira do francês Eric Gautier (Diários de Motocicleta, Na Natureza Selvagem), da escolha da trilha sonora, ora frenética pelo jazz, ora melancólica como o blues, às atuações de um elenco que se manteve fiel ao projeto por oito anos, o filme é resultado prático do despertar causado pela leitura de On The Road.

Salles e o roteirista   Jose Rivera (Diários de Motocicleta) partiram do manuscrito original (publicado apenas em 2007), a versão considerada impublicável por sua ausência de vírgulas, parágrafos e seu conteúdo explícito, filmando a história que Kerouac queria contar. Da edição de 1957 permanecem os nomes dos personagens, que no original recebiam nomes reais -   Sal Paradise/Jack Kerouac, Dean Moriarty/Neal Cassady, Marylou/ Luanne Henderson, Camille/Carolyn Cassady, Old Bull Lee/William S. Burroughs, Jane/Joan Vollmer, Carlo Marx/Allen Ginsberg, Terry/Bea Franco. A escolha foi feita pois, apesar da sua inspiração real, Kerouac colocou no papel uma versão muito mais fantástica do que a realidade - "uma mistura do vivido com o imaginado", segundo Salles. A casa do escritor William S. Burroughs (Old Bull Lee no filme), por exemplo, é descrita por Kerouac como uma velha mansão colonial, cercada por um jardim misterioso. A realidade se serve  apenas de uma pequena casa de madeira.

A escolha do texto a ser adaptado também pesa na motivação que leva Paradise a pegar a estrada. Na versão mais conhecida, é o divórcio que leva o jovem escritor a partir para Denver em busca de Moriarty. No filme, assim como no manuscrito original, é a morte do pai, o trauma que Kerouac já havia citado em Cidade Pequena, Cidade Grande (escrito entre 1946-1949, publicado em 1950), que desencadeia seu fascínio por Dean e sua relação com a estrada. Também estão presentes a relação com a mãe, a sua ascendência franco-canadense, a religiosidade e a sexualidade reprimida, que teria levado Kerouac ao alcoolismo e à rejeição dos seus antigos amigos ("um bando de comunistas") ao fim da vida. Fidelidade que acaba por retratar uma história de excesso já sabendo seu fim. O resultado é uma melancolia sincera, onde no livro vê-se apenas euforia - o que pode causar estranhamento para alguns.

Ficção e Realidade

Salles também mistura o vivido e o imaginado no seu filme, colocando seu elenco em contato com estudiosos do universo beat e os familiares dos expoentes da geração - como a filha de Luanne Henderson (Marylou, interpretada por Kristen Stewart) e o filho de Neal Cassady. Em cena, vê-se o comprometimento dos atores, em um elenco que impressiona não apenas pela coleção de nomes - Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Elisabeth Moss, Tom Sturridge, Alice Braga e Steve Buscemi, além dos já citados Hedlund, Riley e Stewart -, mas pela qualidade das suas interpretações, nutridas por uma mistura de encantamento e respeito às pessoas que os originaram.

Mortensen chegou a estudar o que Burroughs estava lendo na época, o francês   Louis-Ferdinand Céline e a história dos Maias, o que levou a uma bela cena onde Old Bull Lee mostra aos jovens Paradise e Moriarty o quanto as traduções (e as edições) podem deturpar a obra original. Hedlund, que fora duramente criticado por seu trabalho em Tron - o Legado, aqui surpreende pela sutileza com que constrói um dos personagens mais cultuados da literatura contemporânea (que foi inclusive o papel dos sonhos de Johnny Depp por muitos anos). Seu Dean poderia ser simplesmente o rapaz surtado de Denver, que dirige precisa e perigosamente e atrai igualmente homens e mulheres. Sua sensibilidade, contudo, o transforma genuinamente no louco daquele famoso trecho do livro (louco para viver, louco para falar, louco para ser salvo), aquele que fascinou Kerouac e Ginsberg até o final de suas vidas e que morreu prematuramente em 1968. A mesma sensibilidade acompanha o Carlo Marx/Allen Ginsberg de Sturridge, que começa frágil e ingênuo e vai ganhando firmeza e sofrimento até se tornar o autor de O Uivo (1956), outro marco da Geração Beat. A própria Stewart, sob o peso da franquia que a levou a ser uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood, mostra uma entrega franca, revelando uma atriz, sobretudo, corajosa.

O que talvez falte à Na Estrada é não conseguir, enquanto adaptação, vencer a barreira entre inspirado e inspirador. O filme é um retrato sensível do livro e do seu autor, mas não consegue se firmar como obra em si, sendo, ao final, um belo e merecido tributo. Sua realização serve então como um caminho, que pode levar Kerouac e os Beats a uma certa "Geração Crepúsculo", onde a prosa coloquial de On The Road pode mais uma vez transformar os sonhos dos seus leitores em estrada.  Natália Bridi

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Crítica I  O Espetacular Homem-Aranha   (06/07/12)

Ao ser picado por uma aranha radioativa, o franzino Peter Parker recebe a força e a agilidade proporcionais às de uma aranha, além de um sentido que permite fazê-lo pressentir o perigo. A beleza da história, criada por Stan Lee e Steve Ditko no início da década de 1960, reside no fato de que um nerd, extremamente impopular no colégio, alvo de bullies, e sem as ferramentas sociais que lhe valeriam uma namorada, amigos ou um lugar no grupo, é subitamente embuído desses poderes que lhe transformam a vida por acaso, mas não necessariamente de uma maneira positiva.

Peter Parker só quer estudar e ser deixado em paz. Provavelmente construiria a próxima Apple ou Microsoft ou uma gigante farmacêutica se tivesse a oportunidade - mas, ao ser amaldiçoado com grandes poderes, recebe também sua lição de grandes responsabilidades - e passa a ter que equilibrar sua vida pessoal com o seu alter-ego, o Homem-Aranha, prejudicando ambas as identidades. Não estuda direito, não é um herói direito, não tem dinheiro, mas adquire confiança, não abaixa a cabeça e sabe o que deve ser feito, buscando um futuro melhor não apenas para si, mas para o mundo em que está inserido.

Esse Peter Parker é o espelho da adolescência idealista, que enfrenta confusões    e mudanças, um personagem que resiste ao teste do tempo sem grandes alterações há 50 anos.

Em O Espetacular Homem-Aranha, atualização do personagem para os cinemas, Peter Parker não é uma vítima, mas um herói desde o início. A ideia    parece boa a princípio, mas se analisada diminui o conceito de quem é e como    foi criado o personagem nos quadrinhos. Parker, na pele de Andrew Garfield,    não tem nada de desajeitado: anda de skate, usa lentes de contato e enfrenta    valentões de peito aberto - ao receber seus poderes, a única mudança é que ele    efetivamente consegue derrubá-los. A ideia rouba do personagem sua premissa    básica, inspiradíssima na versão de Lee e Kirby, na qual Peter nunca desejou    tais poderes e precisa, diariamente, lutar para alcançar o homem em que foi    transformado. O novo Peter Parker precisava desses poderes. A diferença é sutil,    mas fundamental para que entendamos o quão genérica é esta nova versão do herói.

Focando-se somente no filme, deixando de lado o fã de longa data, a experiência do começo do longa é até agradável. Andrew Garfield, Emma Stone e Martin Sheen são fisicamente (apesar da idade 10 anos maior do casal protagonista que a que representam) e em tom escolhas excepcionais para os papeis de Peter, Gwen Stacy e Tio Ben. As interações entre eles são ótimas - e só melhoram na direção de Marc Webb (500 Dias Com Ela), que sabe muito bem como extrair atuações honestas desse tipo de cenas de intimidade. Mesmo que o romance se desenvolva de maneira meio estranha depois do excelente primeiro convite para encontro (basicamente, os dois vão do "que tal sairmos?" para um jantar com a família, sem escalas), a relação é tão bem atuada - e Stone tão adoravelmente reminiscente das HQs - que esse ato do filme soa honesto e dá vontade de rever. Apenas a Tia May de Sally Field está um tanto apagada, em parte devido ao foco no Tio Ben.

Mesmo que não sejam exatamente os que já conhecemos das HQs    e da última trilogia - recente demais na memória para ser refutada por um reboot -, os personagens são ótimos. Mas o roteiro remendado de Alvin Sargent, James Vanderbilt e Steve Kloves exige uma carga extra    de suspensão de descrença (maior do que acreditar que alguém vira uma aranha-humana    ao ser picado) quando entram os elemento super-heróicos. A ciência, afinal,    tem seus mistérios - e é poético e inspirador imaginar o que não sabemos, o    que existe além da próxima esquina -, mas não dá pra aceitar que Gwen Stacy,    uma mera estudante colegial de 17 anos, por mais brilhante que seja (e não vemos    provas desse brilhantismo em momento algum), seja uma superestagiária-chefe    em um dos maiores laboratórios de pesquisa do mundo, cheia de responsabilidades    que serão a chave para a resolução da trama. A história, portanto, depende demais de coincidências convenientes para se manter em pé. Acompanhe: o pai de Peter está relacionado ao cientista Curt Connors, que por sua vez é chefe de Gwen Stacy, que estuda na mesma classe de Peter, que encontra a pasta de seu pai que contém documentos indispensáveis à pesquisa de Connors, na qual Gwen trabalha  ativamente.

Essas escolhas em parte parecem motivadas pela necessidade de criar uma trilogia    que tente emular o sucesso de Batman Begins de Christopher Nolan, em que o processo de desenvolvimento do herói está relacionado aos seus futuros inimigos. Diferente do filme da Warner, porém, em que essa trama funciona - pela natureza do próprio personagem - aqui parece tudo muito forçado. E se o game que acompanha o filme do Homem-Aranha    também serve de pista, o fato de o vilão Lagarto e o super-herói    serem farinha do mesmo saco genético também servirá para desenvolver a franquia    em mais filmes, já que vários vilões clássicos do personagem saem dessas mesmas    experiências com animais.

A escolha do vilão, vivido por Rhys Ifans, no entanto, é boa.    Na trilogia de Sam Raimi, o Doutor Curt Connors já havia aparecido duas vezes,    mas sempre numa promessa de tornar-se o vilão do filme seguinte. Agora, surge diferente dos quadrinhos (sem a    sua família, algo fundamental para suas motivações nas HQs) e mais inteligente,    falador até. Ainda que em algumas HQs o bicho retenha inteligência, ele destacou-se    sempre como um fera enlouquecida no cânone. O antagonista funciona dentro das    pretensões do filme, tanto como elemento que move a trama como oponente físico,    garantindo a ação. Para os fãs, porém, sua participação na criação    do próprio Homem-Aranha, a ligação com o pai de Peter e outras alterações em    relação à origem consagrada podem parecer devaneios mercadológicos de produção.

Essa necessidade de recontar a origem - uma das mais inexplicáveis motivações do cinema recente, sendo que ela já foi contada há dez anos na mesma mídia e o filme passa com frequência em canais abertos e públicos - é problemática. Por que não começar o filme no colegial, com Peter já transformado? O público é tão burro assim que precisa de tudo explicadinho desde o início todas as vezes? Além de parecer desnecessária, essa ideia está muito mais preocupada em mudar o que já está estabelecido do que em mostrar uma história de como o Aranha tornou-se o Aranha.

O fato de que a história de origem dos pais do personagem, com uma rara e lamentável    exceção rapidamente ignorada pelos leitores, nunca foi foco nas HQs, ajuda também    no esvaziamento de importâncias na trama. O Tio Ben sempre foi a figura paterna    de Peter, posição que o pai biológico jamais ocupou. Ao insistir na trama da    busca das origens, o filme tira a força da relação de ambos, que é dramática    para o entendimento das motivações do herói. Felizmente, Martin Sheen está ali    para segurar a barra com sua presença e impedir que esse esvaziamento efetivamente ocorra.

Predisposição genética

Ao menos, na edição final, O Espetacular Homem-Aranha - que passou por inúmeras refilmagens - tenta minimizar um pouco as alterações em relação ao que elas pareciam ser se observadas todas as cenas e fotos divulgadas do filme e que não estão na versão de cinema. O Doutor Ratha, personagem que desaparece sem explicação depois da cena da ponte, por exemplo, em um dos trailers pergunta a Peter "você acha que o que aconteceu com você, Peter, foi um acidente? Você tem alguma ideia do que realmente é?", sugerindo que o personagem seria uma cobaia do pai, com uma predisposição genética para a transformação - à la Hulk de Ang Lee - e o verdadeiro componente "00". Essa linha dramática, da busca do pai e a "verdade sobre ele", é descaradamente    deixada sem resolução (assim como a do ladrão da estrela no pulso), como um    gancho para o próximo filme, sem qualquer sensação de conclusão. Se levarmos em conta a cena pós-créditos, parece que essa ideia lamentável, uma tentativa óbvia de aproximar Peter Parker de outros "garotos que descobrem que estão destinados a coisas maiores" de franquias cinematográficas ainda voltará... mas é cedo para reclamar.

Outros momentos dignos de nota, ignorados nos filmes de Sam Raimi, também são deixados de lado aqui. Enquanto em Batman Begins, uma das musas inspiradoras de O Espetacular Homem-Aranha, Bruce Wayne tem como obstáculos a criação de seu uniforme e aparelhos, aqui a produção opta por takes velozes dando apenas vislumbres de Peter Parker costurando sua roupa e construindo seu lançador de teias (o fluido de teia ele compra na Amazon... algo que não consigo nem comentar de desgosto e que é ainda pior que teias orgânicas). Enfim, trata-se de um filme de origem despreocupado com o "como" e mais interessado nos "porquês" (Por que ele se transforma? Porque já era um herói interiormente, porque procura seu pai, por causa de sua herança    genética...)

Tecnicamente, porém, é uma produção competentíssima, toda filmada em 3-D (as cenas noturnas, um problema do formato, são bastante nítidas) e que busca usar a técnica de maneiras pouco vistas no cinema estereoscópico, como em sequências em primeira pessoa (pena que a música não acompanhe... a trilha sonora de James Horner foge à memória no instante em que o filme acaba). Nesse sentido, o resultado é ótimo e a ação empolga em vários momentos, com a caracterização do personagem em termos físicos mais fiel aos quadrinhos já vista nas telas. O herói se balança com leveza, assumindo posições e saltos típicos das HQs, um equilíbrio decente e satisfatório para a mal-desenvolvida história.

Enfim, Marc Webb fez um bom trabalho com o texto que lhe foi dado pelos produtores, pena que esse roteiro não esteja à altura do legado do personagem tanto nos quadrinhos, como no cinema. Se os produtores erraram ao forçar demais a mão em Homem-Aranha 3, arrancando de Sam Raimi sua liberdade criativa, e o perderam ao tentar fazê-lo mudar de ideia quanto aos vilões e o tipo de filme que Homem-Aranha 4 deveria ser, aqui erram com a mesma intensidade. Se tivesse este mesmo visual e técnicas e contasse com um roteiro menos preocupado em afastar-se do estabelecido, em direção a uma franquia inédita pelo ineditismo, que fosse mais interessado em apresentar uma história centrada, com começo, meio e fim, o novo Homem-Aranha seria realmente Espetacular. Como foi apresentado, talvez devesse ser rebatizado O Razoável Homem-Aranha.  Érico Borgo

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Crítica I  Prometheus   (10/06/12)

Três décadas depois de Ridley Scott se aventurar pela última vez no campo da ficção científica - "Alien, O Oitavo Passageiro" (1979) -, o cineasta britânico retorna ao gênero com "Prometheus", um filme que traz novos dilemas para o universo que o diretor já explorou há muitos anos atrás.

"Eu não voltei ao gênero anteriormente porque, além de estar ocupado fazendo novos filmes e explorando outros temas, francamente não encontrei nada com a verdade, originalidade e força suficiente. 'Prometheus' possui essas três qualidades", declarou o diretor de "Blade Runner - O Caçador de Androides" (1982).

O roteiro do filme, assinado por Jon Spaihts e Damon Lindelof (da série "Lost"), situa a história no ano de 2093, cerca de 30 anos antes dos fatos registrados em "Alien". Nesta época, um grupo de exploradores descobre alguns indícios sobre a origem da humanidade, um fato que os leva para os extremos do universo em busca de respostas.

A descoberta do grupo permite que este filme vá além do que poderia se considerar um prólogo da mítica obra de Scott. "Ridley e Jon passaram um ano trabalhando em uma minuta quando eu cheguei ao projeto", disse à Agência Efe Lindelof. "A realidade é que Ridley queria se afastar de 'Alien'. A história tinha muitos elementos de um terreno que já tinha percorrido. Queria coisas mais originais. E chegou essa ideia do homem buscando seu criador", acrescentou o roteirista.

Lindelof, uma referência no mundo da televisão, sabe que tem entre mãos o filme de maior envergadura de sua carreira. "É o maior filme que eu já fiz como roteirista. Sinto uma grande pressão. Espero estar à altura. Claro que haverá muitas reações, mas só quero que Ridley esteja orgulhoso do filme que fez", acrescentou ele, que também é produtor executivo de "Prometheus".

O filme, que estreou recentemente nos EUA, conta com um elenco formado por Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green e Idris Elba. O filme começa com a descoberta de algumas pinturas rupestres que parecem fazer alusão a um planeta distante, o que leva a multinacional Weyland Industries a financiar uma viagem ao espaço para investigar a origem da vida.

Lindelof recebeu a encomenda por parte do famoso diretor de ampliar essa ideia e desenvolver uma trama que tocasse algumas reflexões universais, como quem somos ou de onde viemos. "Fiquei aterrorizado quando ele me chamou", admitiu o roteirista. "Fui seu fã toda minha vida, particularmente de 'Alien' e 'Blade Runner'. Pensei que tinha se equivocado e que queria falar com outro, mas também não quis corrigi-lo. Ajudar a moldar sua visão de filme foi um privilégio", disse.

O grupo, liderado por dois cientistas (Rapace e Marshal-Greene), uma representante da empresa (Theron) e um androide de aspecto humano (Fassbender), se desloca a bordo da nave Prometheus (Prometeu), o nome do titã que ousou desafiar os deuses na mitologia grega e, por isso, acabou castigado.

A expedição espera encontrar o paraíso e suposto refúgio dos deuses criadores, algo diferente do que terminarão por encontrar, já que estarão imersos em uma verdadeira batalha para garantir a existência da raça humana. Toda a história nasce a partir de uma figura que aparecia brevemente em "Alien", a do chamado Space Jockey, um gigante extraterrestre com um buraco no peito.

"A ideia em torno da origem dos 'engenheiros' - seres que criaram a vida na Terra - já estava no papel quando cheguei. Ridley queria ideias de evolução e sobre a possibilidade de que esses seres tivessem fabricado os humanos através da biologia e da biomecânica", declarou Lindelof.

Apesar de oferecer respostas para algumas questões-chave de "Alien", o filme abre novos dilemas que deverão ser respondidos com uma possível sequência, caso o filme se torne um sucesso. "É difícil encontrar um balanço entre o que queríamos revelar aqui e o que queríamos deixar para mais adiante", reconheceu Lindelof. "Espero que as pessoas se interessem e queiram mais continuações. Se não houver, acho que o filme se sustenta por si só", finalizou o roteirista.  EFE

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Crítica I  Deus da Carnificina   (08/06/12)

Adaptando em "Deus da Carnificina" a peça homônima da francesa Yasmina Reza, encenada no Brasil em 2011, o diretor franco-polonês Roman Polanski extraiu o melhor da qualidade do texto, aliando-se à própria autora como corroteirista e a um notável quarteto de atores: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.

Tirando bom partido do confinamento previsto no texto original, cuja ação se passa na sala de um apartamento, Polanski desdobra as muitas nuances de um duelo verbal feroz entre dois casais. Um deles, formado pelos pais de um garoto que agrediu o filho do outro com um pau, quebrando-lhe dois dentes. Os dois meninos são colegas de classe.

O incidente, corriqueiro na aparência, é o rastilho de pólvora que vai incendiar quatro personagens de origens sociais e culturais diferentes, cada um representando posições em choque sobre diversas questões explosivas no mundo atual - o politicamente correto, a mobilização por causas do Terceiro Mundo, as regras da vida em comunidade, as diferenças entre homens e mulheres, os sacrifícios pessoais exigidos pelo casamento.

Polanski faz justiça ao texto, assinando um filme notável por sua intensidade minimalista ao sustentar a ironia que se infiltra nas entrelinhas. Além de estar à vontade dentro deste tipo de cinema claustrofóbico, que ele cultivou tão bem em trabalhos anteriores, como "A Faca na Água" (1962), "Repulsa ao Sexo" (1965) e "O Inquilino" (1976), o diretor recebeu um inesperado e desagradável reforço adicional: foi durante os sete meses de sua prisão domiciliar, em seu chalé na Suíça, em 2009, que ele produziu este roteiro.

A prisão foi ainda um rescaldo da velha pendência com a Justiça norte-americana, relativa a um suposto estupro contra uma menor, 35 anos atrás.

Inovando em relação à montagem teatral, Polanski incorpora ao filme duas sequências externas, filmadas num parque de Nova York por um de seus assistentes - já que ele pode ser preso se voltar ao país -, inclusive a própria briga dos meninos que deflagra a guerra entre seus pais. Além disso, o diretor acrescenta uma ácida conversa do casal Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Cristoph Waltz) no banheiro, inexistente no teatro.

Filme e peça apoiam-se fundamentalmente na notável artilharia verbal do texto original, que serve à perfeição não só para delimitar as diferenças entre os personagens, como para escancarar como são frágeis as máscaras sociais, como a educação, a cultura, até os modos à mesa. Não é um panorama muito otimista do estado geral da civilização, alguns milênios depois da saída dos homens das cavernas, mas certamente sua ironia é uma digna forma de encará-lo. Reuters

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Branca de Neve e o Caçador    (01/06/12)

No conto dos Irmãos Grimm, registrado da tradiçãoral europeia no século 19, a história da Branca de Neve não tem nada da doçura que Walt Disney consagrou na primeira animação longa-metragem da história. Mas na cultura pop, com raras exceções, a história seguiu o tom estabelecido pelo estúdio. Em Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Hunstman, 2012), porém, resgata-se a violência psicológica do original, ao mesmo tempo dando à história novas reviravoltas e qualidades, tornando-a mais uma vez relevante em tempos em que o desejo de ser princesa evanesce cada vez mais cedo.

Projeto do diretor de cinema de primeira viagem Rupert Sanders, egresso do mercado publicitário, o filme foi vendido em Hollywood como um épico com qualidades - na medida do possível - realistas. Para convencer a indústria, em que circulavam outros vários projetos baseados no conto, de que sua história tinha algo diferente, Sanders criou cenas inteiras do filme com o auxílio de casas de finalização. O resultado impressionou - e quem viu, diz que esse "rascunho" difere do original apenas nos rostos, já que foi filmado com desconhecidos -    e o projeto foi realizado com qualidades de épico que lembram mais O Senhor dos Anéis do que o que se espera de uma Branca de Neve, em especial no belo registro fotográfico.

Ainda que não seja efetivamente gráfico em sua violência, Branca de Neve e o Caçador tem algumas imagens de impacto, potencializadas pela interpretação de seu elenco. Charlize Theron, a Rainha Ravenna, entrega-se com intensidade ao papel, elevando a aura de malignidade da personagem, que também ganha aqui um passado bem desenvolvido. As motivações da protagonista, graças ao roteiro e aos esforços da atriz, pode até de certa forma ser compreendida, ainda que suas atitudes continuem questionáveis. Do outro lado, Kristen Stewart, a Branca de Neve, garante à princesa uma força inexistente em qualquer outro filme baseado na história, uma qualidade de liderança, de força, mas sem perder a feminilidade ou tornar-se uma super-heroína. Essas qualidades são exploradas também em uma tribo de mulheres,    cujas faces são marcadas para torná-las estéticamente feias, permitindo que elas possam escapar do jugo conhecido do espelho da Rainha e sua busca contínua pela "mulher mais bela" do reino.

 

Menos interessantes são os papeis masculinos, que são um tanto alegóricos. Com a intenção de relacionar este filme com a Saga Crepúsculo, de olho em uma base de fãs já estabelecida, o marketing faz parecer que a Branca de Neve está de certa maneira dividida entre o Caçador (Chris Hemsworth) e o Príncipe (Sam Claflin). Mas a verdade é que há pouquíssimo espaço para romance ou cortejo na trama, enquanto uma força maligna sobrenatural assola o reino, consumindo-o como uma praga. Mesmo assim, sem o lado romântico que seria previsível, tais papeis trazem muito pouco de novo em termos de heróis de épicos fantásticos. Bem mais interessantes são os oito anões, vividos por excelentes atores britânicos (Ian McShane, Eddie Izzard, Bob Hoskins, Toby Jones, Ray Winstone, Eddie Marsan, Steve Graham e Nick Frost), que os interpretam como integrantes de uma gangue barra-pesada londrina. Entre os momentos menos inspirados do filme estão uma sequência de ação gratuita contra um troll, que muito pouco agrega à trama (mas é visualmente bacana), e elementos fantásticos "do bem" (o bosque encantado é superbrega) que não são tão interessantes quanto todo o resto (em especial a Rainha e seus malefícios). 

De qualquer maneira, o filme consegue usar satisfatoriamente ícones conhecidos da história de maneiras novas, como mecanismos inteligentes que funcionam a serviço da narrativa. Ao final, há muito o que apreciar nesta nova versão de Branca de Neve, mas o suficiente para ignorar também. Érico Borgo

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Plano de Fuga    (18/05/12)

Mel Gibson roteiriza, produz e interpreta ladrão que fica detido em uma penitenciária bizarra

Ainda no começo deste ano foi divulgado que Plano de Fuga (Get The Gringo, 2011), novo filme roteirizado, produzido e estrelado por Mel Gibson  seria lançado nos Estados Unidos direto em Video on Demand (sistema de pay per view que deixa os espectadores pagarem para ver o filme em casa, quando quiserem), pulando assim uma estreia nos cinemas.

Tal atitude pode ser facilmente entendida pela atual ruptura do ator/cineasta com Hollywood, depois de andar bebendo demais, ter arranjado problemas com a ex-esposa e, principalmente, ter desfilado um anti-semitismo justamente na terra que é controlada - em grande parte - por judeus. O boicote já havia prejudicado sua participação em Se Beber, Não Case! Parte II (The Hangover Part II) e parece longe de acabar. Enquanto isso, ele vai fazendo seus filmes independentes.

Plano de Fuga é tudo isso e ainda uma auto-prova de que ele ainda aguenta estrelar um filme de ação, correndo, atirando e mantendo a pose aos 56 anos. O projeto foi rodado majoritariamente na mesma cidade de Veracruz, no México, onde ele filmou Apocalypto e o  diretor estreante é o argentino radicado no México  Adrian Grunberg, que foi primeiro assistente de direção de Gibson no épico maia. A falta de experiência aparece em alguns momentos, mas não compromete.

O filme começa com uma perseguição de carros na fronteira entre Estados Unidos e México. Após ser preso, o protagonista é logo levado para a cidade-presídio de "El Pueblito". O local, ele vai descobrir, é comandado por uma família de bandidos locais, que dá ordens até mesmo no diretor do presídio e tem por ali tratamento de rei. O comércio local é liberado e o pagamento não se restringe apenas a cigarros. Após usar suas artimanhas para conseguir os primeiros trocados, que lhe renderão um certo conforto, Driver (Gibson) é abordado por um menino de 10 anos e vai aprendendo com ele mais sobre o local e seus costumes.

O roteiro - com final bastante previsível, mas um bom desenvolvimento - mostra tudo o que há de mais politicamente incorreto. É boca suja, todos os mexicanos são corruptos e corruptíveis, o local é um grande lixão superpovoado e o menino faz de tudo para conseguir saciar seu vício com a nicotina. Este cenário, que poderia perfeitamente ser mostrado em um filme ambientado no Brasil, é tão ou mais interessante que os próprios personagens - principalmente os secundários, que são completamente bidimensionais.

Além de toda a ação e a parte detetivesca de descobrir por que ele está ali, o que ele roubou e de quem, e como fará para sair daquela, o filme também se utiliza bastante do humor. Um humor diferente, que não tem medo de arriscar para arrancar um sorriso do rosto do espectador, e até a gag física, do tapa na cara do palhaço - literalmente.

Ainda no cenário mexicano, Mel Gibson vai em breve estrelar como o vilão de Machete Kills. Resta saber quando é que Stallone o chamará para entrar para a trupe dos seus Mercenários. Em Plano de Fuga ele prova mais uma vez que ainda é um ótimo astro de ação e mantém a sua cara e jeito de louco desde os tempos de Máquina Mortífera.  Marcelo Forlani

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Os Vingadores - The Avengers   (26/04/12)

Em contraste com o cinema focado em um ou dois personagens, o filme dá a vários protagonistas aproximadamente o mesmo tempo de tela e importância dramática. Esse formato é mais comum na televisão, já que garante aos roteiristas tempo para trabalhar isoladamente cada personagem, por episódio.

Ainda que tenha pouquíssima experiência no cinema como diretor, Joss Whedon conhece muito bem como trabalhar múltiplos protagonistas nas telinhas. Em séries criadas por ele, como Buffy - A Caça-Vampiros, Angel e Firefly, Whedon explorou universos fantásticos sob o ponto-de-vista de distintos guias, mas sempre mantendo o foco em uma linha narrativa principal. Sua escolha para a primeira grande fusão de séries  nos cinemas em Os Vingadores - The Avengers (2012), portanto, não poderia ter sido mais inspirada.

Com a experiência da TV, ainda que sob o tempo exíguo das produções comerciais de Hollywood, o diretor - que também trabalhou o roteiro do filme - soube como manejar as participações de cada um de seus superprotagonistas, dando a eles funções específicas dentro da trama de Os Vingadores. Junta-se a essa habilidade o fato de que Whedon é um tremendo nerd: conhece cada um dos seus jogadores e trafega com desenvoltura pelo universo dos super-heróis. São dele, por exemplo, os primeiros arcos de uma das mais empolgantes séries em quadrinhos dos mutantes da Marvel, Os Surpreendentes X-Men.

Lendo a HQ, fica fácil entender como ele conseguiu o emprego na cobiçada superprodução do Marvel Studios. Já estava tudo lá: o equilíbrio entre o tempo de cada herói, a ação desenfreada e imaginativa, a história central que mistura relações humanas e um desafio mortal, e os momentos de pura paixão nerd. Obviamente, havia a dúvida se Whedon conseguiria levar sua experiência na TV e HQs para o cinema, já que o único filme que havia dirigido até então era Serenity (2005), uma adaptação para a tela grande da série Firefly.

Felizmente, o roteirista experimentado provou-se à altura do desafio. Ainda que seja um tanto pasteurizado em termos estéticos (não diferindo de qualquer outro blockbuster de grande orçamento da última década), Os Vingadores  é perfeitinho dentro de suas pretensões. É, afinal, um filmão da Marvel - e como tal, obedece a cinco décadas (!) de tradição da chamada "Casa das Ideias". Não deixa de ser, assim, uma versão modernizada da primeira aventura dos Vingadores, de 1963: nela, heróis solitários se reúnem - depois de algum desentendimento gerado pelo inevitável conflito de egos que acompanha grandes seres - para enfrentar uma ameaça comum, engendrada pelo manipulador, ganancioso e inescrupuloso vilão Loki.

Em espírito, o filme é idêntico à HQ criada por Jack Kirby e Stan Lee. Com fãs apaixonados como Whedon e o presidente da Marvel, Kevin Feige, no comando, não poderia mesmo ser diferente. É curioso notar como o Agente Coulson - personagem criado especificamente para o cinema, interpretado por Clark Gregg -, é uma maneira desses executivos/realizadores/fãs se colocarem ali, no meio da ação. Coulson, que se revela nerd, é fundamental na união dos Vingadores, assim como o foram Whedon e Feige.

Para quem, como eu, cresceu lendo essas histórias e acompanha o Universo Marvel como um casamento de décadas (nos bons, maus e péssimos momentos), portanto, ver a reunião das franquias Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk é uma vontade realizada. E vê-la BEM realizada, um deleite. Cenas específicas apelam à memória emotiva e ajudam a relevar, sem qualquer esforço, pequenos problemas, como o primeiro ato, que é bastante arrastado em comparação ao explosivo e superelaborado clímax (Michael Bay poderia aprender aqui uma lição de como concatenar personagens e focos de ação distintos em um todo coeso).

Mas mesmo nas longas sequências em que pouco acontece e a trama embola um pouco (também um tradição de Stan Lee, o mais verborrágico de todos os quadrinistas), há o que se desfrutar,  como Robert Downey Jr., a cola que une o grupo, em cena nas melhores interações com o elenco, em especial o novato na série Mark Ruffalo. Os debates entre os dois cientistas (Tony Stark e Bruce Banner) e entre ele e Tom Hiddleston (fantástico como o Loki e muito mais à vontade que em Thor) são tão divertidos quanto a invasão da armada alienígena que aflige Nova York ao final.

Um filme de ação bem estruturado, que explora os pontos fortes de todo seu elenco e dá ao fã - leitor ou novato, que conheceu esse universo no cinema - exatamente o esperado, Os Vingadores - The Avengers entra desde já como mais um marco na celebrada história da Marvel. Só nos resta torcer para que demorem algumas décadas para que as famosas burradas editoriais da empresa cheguem às telas. Por enquanto, os Agentes Coulson por aí agradecem! Érico Borgo

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Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios   (20/04/12)

O que faz uma musa é o olhar daquele a quem ela inspira. Por definição, então, não existem musas por si só. É um conceito que pode soar machista porque implica posse, e desde Crime Delicado Marçal Aquino e Beto Brant têm se dedicado a problematizar esse tipo de relação nos filmes do diretor, que Aquino roteiriza.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, o mais celebrado romance do escritor, já havia servido de inspiração para Brant e o codiretor Renato Ciasca fazerem O Amor Segundo B. Schianberg. Agora eles partem para a adaptação literal. É o mais ambicioso e difícil trabalho do trio, como se toda a obsessão temática que os acompanha desde 2005 - ano da conclusão de Crime Delicado e da publicação de Eu Receberia... - fosse uma preparação para este filme.

Eu Receberia... conta a história de um triângulo amoroso entre o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado), a ex-prostituta Lavínia (Camila Pitanga, possuída) e o pastor Ernani (Zécarlos Machado) no Pará, onde uma população ribeirinha assiste ao desmatamento da floresta. A trama não linear vai e vem no tempo para mostrar como Ernani tira Lavínia das ruas e como, já casados, os dois agem em defesa da comunidade na Amazônia - onde, morando a trabalho, Cauby se encanta com a mulher.

 

O filme elimina personagens secundários do livro para se concentrar no triângulo. As únicas cenas que não envolvem as relações do trio são aquelas com a presença do jornalista Viktor Laurence (Gero Camilo) - e ainda assim os insights de Viktor servem para iluminar o que acontece no triângulo. A reflexão sobre o filme, portanto, já é diegética, acontece dentro da ação. Não por acaso, Viktor, com seu comportamento de comentarista onisciente, será responsável pelo evento que desata os nós do triângulo.

A concisão extrema - Eu Receberia... se desenrola em poucas cenas, ligadas por elipses bem espaçadas - acaba gerando associações frágeis (a "posse" de Lavínia relacionada à questão da propriedade na Amazônia) mas torna mais urgente e focada a discussão sobre a apropriação da musa.

 

A divisão é clara. Cauby, o fotógrafo, faz de Lavínia  seu objeto (o filme já abre com ela sendo fotografada, como se Lavínia só existisse diante de nós filtrada pela lente dele). Já Ernani, o pastor, encontra na prostituta uma voz a ser desperta pelo seu dom da palavra, o que também a torna sua musa (aquela Lavínia de Cauby, que além de exuberante mostra-se bem articulada, sem dúvida é também a Lavínia de Ernani).

As intensas cenas de sexo de Eu Receberia... acontecem justamente após os momentos de "negociação" da posse: depois da sessão de fotografia de Cauby e depois que Ernani ora pela alma de Lavínia. Uma musa constituída pela imagem e pelo verbo, pronta a ser apreciada. Sem essa apreciação - situação que Lavínia enfrenta no filme quando não tem Ernani ou Cauby por perto - a personagem literalmente se desarticula.

Parece uma equação simples, mas na "vida real" a apropriação da musa (ou qualquer outra idealização) obviamente é mais complexa. O crítico de teatro vivido por Marco Ricca em Crime Delicado achou que fosse, sim, bastante simples - afinal, como crítico, ele reduz objetos a uma razão analítica - e quebrou a cara. Em Eu Receberia... a violência também surge para mostrar aos personagens que uma relação negociada não é uma relação definida.

"Não há paixão sem luta", diz um personagem a certa altura. "Santa é a carne que peca", emenda  Viktor, na fala mais espirituosa do filme. O corpo pode ser um santuário (só pra ficar no léxico religioso, que no fim das contas nem é tão diferente assim do vocabulário de um esteta diante de seu objeto de culto), mas provar essa adoração do corpo exige sacrifícios.  Marcelo Hessel

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Crítica  I  A Toda Prova   (13/04/12)

Em A Toda Prova (Haywire), Steven Soderbergh continua a explorar um interesse inciado em Confissões  de uma Garota de Programa: a contratação de protagonistas  que tenham relação mais realista com suas personagens do que atrizes convencionais. Se no filme de 2009 ele colocou a atriz pornô Sasha    Grey para viver uma profissional do sexo, aqui dá o papel de uma agente especializada em combate corporal à estrela do MMA Gina Carano.

No thriller de espionagem escrito por Len Dobbs (que  já fez Kafka e O Estranho com Soderbergh), uma ex-oficial  de operações especiais, Mallory Kane (Carano), trabalha para um grupo privado de ações militares (administrado por um empresário interpretado por Ewan McGregor), até que é traída por um integrante da sua própria equipe - e parte em uma jornada de vingança.

- Trailer de “A Toda Prova”, #1:


Carano está acompanhada por um elenco de primeira, que inclui Michael    Fassbender,Michael Douglas, Channing Tatum, Antonio Banderas, Bill Paxton, Michael Angarano e Matthieu Kassovitz. Um monte de  talentos para compensar a dureza da atriz, que tem aqui seu primeiro papel de destaque. Mas tudo o que Carano - que teve até sua voz alterada digitalmente para o filme - deve em termos de atuação ela compensa com uma  presença poderosa, que faz valer cada cena de combate em tela. Não  há treinamento preparatório para atriz no mundo que se equipare    à postura e golpes de Carano. Em determinadas cenas é como se    o corpo dela se recusasse a aceitar o "corta!" e quisesse continuar    destruindo seu oponente. Não por acaso, vários dos atores que    tiveram cenas de luta com ela disseram ter saído feridos das gravações.

Pôster de “A Toda Prova”, novo filme de Steven Soderbergh©Reprodução

Mas ainda que as cenas de pancadaria sejam empolgantes, a trama do suspense    - fotografado cheio de estilo por Soderbergh, sob pseudônimo - é    bastante superficial. Há muito pouco roteiro para a duração  do filme, que se apoia então em tempos mortos e longos takes (a edição também é do cineasta), tornando este quase que um filme de ação iraniano. Mesmo que tenha sido a intenção aqui não desenvolver  demais personagens e relações, mantendo sua aura de mistério, a história simplista de vingança não tem estofo suficiente.    Nada que uns minutos a mais de Gina Carano espancando todo mundo não    tivessem resolvido, porém... Érico Borgo

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Crítica I  Jogos Vorazes  (23/03/12)

Os fãs frequentemente reclamam quando estúdios e mídia tentam vender novas franquias como "a mania que vai substituir Crepúsculo", ou "o próximo Harry Potter". A comparação, porém, é lógica no que diz respeito à estrutura. A máquina hollywoodiana sabe embalar apenas determinados tipos de produtos - daí certos filmes, que não se enquadram muito bem em gêneros conhecidos, terem dificuldade de execução e distribuição - e qualquer adaptação de grande orçamento de obra infanto-juvenil, como é o caso de Jogos Vorazes (Hunger Games, 2012), cairá nos processos conhecidos da indústria, desejosa do próximo grande sucesso de bilheteria.

A comparação é injusta, no entanto, quando analisamos  o conteúdo de obras tão distintas. De todas essas grandes franquias recentes, a primeira adaptação da trilogia literária de Suzanne Collins é a que tem conteúdo mais contestador, com inspirações em grandes obras distópicas como Admirável Mundo Novo, 1984 e, nos próximos livros, até Fahreinheit 451. Discussões sobre a autoridade, culto a celebridades, obediência, poder e controle estão em pauta na história que se passa nas ruínas futuristas da América do Norte, dividida em uma capital e 12 distritos.

Na trama, depois de uma tentativa de revolução, décadas antes, a Capital passou a exigir de cada distrito um tributo na forma de dois jovens - um garoto e uma garota - entre 12 e 18 anos, para competir no reality show de sobrevivência que dá nome ao filme. Eles devem enfrentar outros 22 concorrentes até a morte, em uma arena controlada pelo governo. O vencedor garante para seu distrito um bônus em suprimentos e regalias pelo próximo ano. A trama acompanha uma dessas jovens, Katniss Everdeen  (Jennifer Lawrence), adolescente de 16 anos que se oferece para lutar no lugar da irmã, sorteada pelo distrito.

Ainda que guarde semelhanças também com Battle Royale, filme hiperviolento japonês - mais especificamente a    batalha entre jovens até a morte -, a adaptação de Jogos    Vorazes (que, diferente do livro, abandona o foco exclusivo em Katniss e revela os bastidores do controle governamental) distancia-se de qualquer comparação recente pelos questionamentos e por não usar o espetáculo como fetiche. Afinal, não é empolgante ver o embate dos jovens na arena, mesmo que alguns deles, os mais aptos, tenham se oferecido para estar ali e desejem as glórias do combate. Os oponentes de Katniss, assim, não são os demais competidores, mas as forças por trás dos jogos. O diretor Gary Ross (Seabiscuit) opta até por um estilo de câmera e edição nas cenas de ação que se desvia elegantemente da barbárie, dando vislumbres dela, mas tirando das cenas o impacto gráfico que poderia torná-las fetichistas (e, obviamente, tornam o filme comercialmente viável em termos de classificação indicativa).

No centro de tudo, Jennifer Lawrence está à altura do desafio. Depois de excelentes atuações em filmes como X-Men Primeira Classe, Inverno da Alma e Like Crazy (infelizmente ainda inédito por aqui), a atriz traz Katniss à vida com o equilíbrio perfeito    de fragilidade e determinação. E ela está cercada por ótimos    nomes, como Stanley Tucci, Wes Bentley, Woody Harrelson, Toby Jones,    Elizabeth Banks e Donald Sutherland. A única contratação infeliz foi a do músico Lenny Kravitz, incapaz de atuar, para um dos papeis mais importantes fora do combate, o do figurinista Cinna.

Até no obrigatório romance o filme vai bem, já que o interesse dos personagens dá margem a questionamentos. Estaria Peeta Mellark (Josh Hutcherson), o companheiro de distrito de Katniss nos jogos, fingindo sua afeição ou seu interesse é verdadeiro? Estaria Katniss    sendo usada? Em tempos de lições de submissão professoradas por vampiros e lobisomens, ver uma personagem feminina forte - seja portando um arco e flecha ou suas ideias - protagonizando um filme de grande público jovem, faz pensar que nem tudo está perdido. Érico Borgo

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Crítica I  Drive  (02/03/12)

Um dos filmes mais falados de 2011 chega finalmente nesta sexta-feira (02) ao Brasil, depois de várias estreias adiadas. "Drive" encabeçou boa parte das listas de melhores do ano passado e desde a sua estreia no Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio de direção para o dinamarquês Nicolas Winding Refn, vem ganhando aura cult e uma legião de fãs, que chiaram quando o filme recebeu apenas uma indicação ao Oscar 2012 (de melhor edição de som).

Tanta agitação tem razão de ser. Estrelado por Ryan Gosling, "Drive" é, além de eletrizante, recheado de elementos que permitem uma rápida identificação com o mundo pop: uma trilha sonora oitentista puxada por sintetizadores a ala Angelo Badalamenti, e estilo, muito estilo, numa caracterização deliciosa.

Como o Estranho Sem Nome de um faroeste, apresentado apenas como "piloto", "motorista" ou "garoto", o personagem de Gosling usa luvas de couro sem dedos, palito no canto da boca, óculos escuros e uma jaqueta prateada com um escorpião nas costas – a roupa virou febre nas festas do Dia das Bruxas, em outubro. Os enquadramentos e closes parecem ter sido feitos para fazer de qualquer elemento um colecionável em potencial.

Ouça abaixo a música de abertura, com participação da brasileira Luiza Lovefoxxx:

"Drive" é uma adaptação do romance homônimo de James Sallis, publicado recentemente no Brasil. Nas mãos do roteirista iraniano Hossein Amini (indicado ao Oscar por "Asas do Amor"), o noir moderno situado em Los Angeles recebeu outras nuances, falas secas, diretas, e uma estrutura linear que o livro não tem.

Depois que a Universal Pictures, dona inicialmente dos direitos do livro, desistiu de torná-lo um veículo para Hugh Jackman, Gosling entrou em cena e, com ele, Winding Refn, conhecido pelos filmes da série "Pusher" e pelo curioso "Bronson" (2008). Os dois, ator e diretor, colaboraram no roteiro e "Drive" ganhou sua cara, uma mistura de gêneros.

A introdução do filme é exemplar. Em pouco tempo já se sabe que o Motorista tem duas frentes de trabalho: uma, oficial, como dublê em Hollywood, e outra como condutor de assaltos. Ele conhece as ruas da cidade com a palma de mão e consegue fugir sem deixar rastros, desde que a ação seja feita em no máximo cinco minutos. Mecânico veterano da indústria cinematográfica, Shannon (Bryan Cranston, de "Breaking Bad") agencia o rapaz em ambos os negócios e tem grandes planos para ele na Stock Car.

Aí surge Irina (Carey Mulligan, de "Educação"), a vizinha de ar angelical, e seu filho Benicio. Sem muito diálogo, centrada nos olhares, a química entre ela e o Motorista é instantânea. "O que você faz?", ela pergunta. "Eu dirijo ['drive', em inglês]", ele responde. A tensão dos dois é tão palpável que daria para colocar numa caixa, embrulhar e dar de presente no Dia dos Namorados.

"Drive" dá uma guinada brusca quando o marido de Irina (Oscar Isaac) sai da prisão. De repente, abrem-se as portas para um banho de sangue (o diretor tem como seu filme favorito "O Massacre da Serra Elétrica) e a ação, até então plácida, entra chutando a porta. O Motorista mostra ser perigosamente violento quando quer e, tal qual o Philip Marlowe de Raymond Chandler, implacável até com as mulheres – que o diga Christina Hendricks, presente numa ponta.

É só um exemplo de um amontoado de referências. Fica claro que Winding Refn viu e reverencia "Caçador de Morte" ("The Driver"), dirigido por Walter Hill em 1978: do visual às perseguições e a semelhança de Ryan O'Neal com Gosling, está tudo ali. Mas há ainda um quê do Shane de "Os Brutos Também Amam" (1953) e do próprio "Desejo de Matar" de Charles Bronson, quando o Motorista se converte num anjo vingador em busca de justiça.

Fazem parte dessa trama a dupla de mafiosos formada por Nino (Ron Pearlman, que mantém sua fama de mau) e Bernie Rose, interpretado pelo sumido Albert Brooks ("Um Visto para o Céu"), excelente como um ex-produtor de cinema que diversificou seus negócios.

É Bernie quem financia o empreendimento de Shannon na Stock Car e simula, de certa forma, o pêndulo no qual o filme se apóia: paternal e agradável num instante, assassino no outro, como o próprio Motorista. Um simulacro da lenda de Los Angeles, terra do sonhos que mastiga e cospe os desavisados.

"Drive" não é irretocável, em especial na construção de Irina e próximo do fim, quando o Motorista, próximo da insanidade, não tira o pé do acelerador para concluir o que se propôs. O herói sanguinário, aí, enfraquece sua empatia com o público.

Mas a conclusão mantém mais do que nunca o espírito de faroeste e acentua um clima fantástico, de conto de fadas, que flutua pela história. "Drive" choca, comove, instiga e entretém no mesmo pacote. É irresistível vibrar durante a projeção, de tensão ou de prazer. Um belíssimo filme de Gosling e Winding Refn, que vão repetir a dose, com "Only God Forgives", ambientado na frenética Tailândia – nada mais adequado para a energia da dupla. Marco Tomazzoni

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Crítica I  A Mulher de Preto  (23/02/12)

Nas histórias de terror não tem emprego pior que procurador, advogado ou escriturário. Como Jonathan Harker aprendeu em Drácula, é meio caminho para ver-se sozinho e indefeso em imóveis mal assombrados - porque mesmo os castelos da Trânsilvânia precisam estar com a papelada em dia, afinal.

Em A Mulher de Preto (The Woman in Black), Daniel Radcliffe faz o jovem advogado e pai viúvo Arthur Kipps, cujo emprego está por um fio desde que a morte de sua esposa o desestabilizou emocionalmente. Ele precisa viajar para um fim-de-mundo no interior da Inglaterra para cuidar dos papéis de um cliente recém-falecido, dono de uma mansão. A mulher de preto do título é o espírito maligno que Kipps encontra no vasto terreno, ora abandonado.

Dos longas que a Hammer Films - produtora britânica conhecida por seus    terrores góticos na metade do século 20 - realizou desde que voltou sob nova direção em 2008, como Deixe-me Entrar e A Inquilina, A Mulher de Preto é o que mais se aproxima da estética e dos temas consagrados da Hammer. Talvez venha daí a impressão de que seja um filme à moda antiga, preocupado não só com a direção de arte sinistra e com sustos de vultos, mas principalmente com a atmosfera.

Há poucos lugares mais propícios a um terror gótico do que o interior e o litoral da Inglaterra. Cotterstock Hall, a casa onde o filme se passa, que fica em Oundle, Northamptonshire, foi construída em 1658 e não parece ter mudado muito ao longo desses séculos - e o mesmo vale para os arredores. A Mulher de Preto se passa na era eduardiana, nos anos 1900, mas a produção deve ter mexido pouco na paisagem para recriar esse cenário de época.

Outra constante desse tipo de filme é o choque de comportamento; o protagonista quase sempre é da cidade grande - no caso de Arthur Kipps, Londres - e, por extensão, olha com ceticismo para as crendices místicas da "gente do campo". Não é difícil antever que A Mulher de Preto seguirá o receituário clássico, com Arthur Kipps tendo a lógica como única arma contra o inexplicável.

O diretor James Watkins faz um trabalho decente ao contextualizar A Mulher de Preto dentro dessa linhagem do terror, que tem na melancolia dos personagens o seu traço mais marcante. Os terrores góticos em geral, e os da Hammer em particular, não encaram o sobrenatural com surpresa, mas com resignação - como se questionar o destino, por pior que ele seja, fosse tão absurdo quanto questionar os direitos da realeza.

No fundo, embora exista esse aparente comodismo, é o rancor contra a    aristocracia que move o subgênero. Não por acaso a Hammer prosperou com o terror gótico na Inglaterra pobre do pós-guerra, e não por acaso os "heróis" do gênero são esses eficientes burocratas que questionam posse e propriedade. É como se uma maldição à altura de sua ostentação fosse o castigo merecido dos    ricos.

A maior qualidade de A Mulher de Preto - um filme de direção meio frouxa, com um Daniel Radcliffe esforçado - é perceber e retransmitir essa melancolia e esse rancor que surgem com a estagnação social. Marcelo Hessel

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Vidas Cruzadas  (03/02/12)

Histórias Cruzadas (The Help) mostra o drama das empregadas negras nos Estados Unidos durante a conturbada luta pelos direitos civis em meados do século passado. No entanto, o faz trilhando um caminho dos mais intimistas, priorizando as questões pessoais das personagens em detrimento de eventos históricos e políticos que poderiam tornar mais épico - e menos próximo - o tom do filme (ou talvez essas duas abordagens sejam, essencialmente, a mesma coisa, como  defenderam as feministas à época, com seu lema "Le personnel est politique").

Assim, é de forma extremamente íntima - como na necessidade de um banheiro separado para as empregadas ou no carinho que essas ajudantes sentiam pelas crianças brancas que criavam -, que somos apresentados ao atrasado estado do Mississipi em 1962. Skeeter, personagem vivida por Emma Stone, é a única de suas amigas de colégio  disposta a ver aquelas mulheres negras de forma igualitária. Seu sonho  é ser escritora e ela encontra seu primeiro emprego na coluna de conselhos domésticos do jornal local, assunto sobre o qual nada sabe, aproximando-se assim de Abileen (Viola Davis).

Não demora para que ela tenha a ideia de revelar ao mundo como aquelas mulheres se sentem. Mas o único obstáculo para tanto são as próprias    empregadas e seu medo de punição caso alguém descubra.    Afinal, é na base da ameaça que os segredos das chefes brancas    são mantidos. E quão detestáveis são as chefes!  Bryce Dallas Howard consegue transmitir tanta maldade (inicialmente velada) com sua Hilly Holbrook que é inevitável se pegar na plateia torcendo contra ela.

Os momentos mais sofridos do filme são de Viola Davis, cujos depoimentos são contados em tom calmo e sofrido. Já Minny  (Octavia Spencer) dá os toques cômicos que às vezes são quase exagerados, mas não falham em arrancar risadas da plateia. Este é um filme de mulheres e cada atriz soube entregar seu papel muito bem, com a dose certa de dramaticidade e humor (o espaço para os homens é tão limitado quanto a parede de Abileen: só Jesus Cristo e John F. Kennedy merecem destaque ao lado da foto do filho). O equilíbrio é tamanho que Histórias Cruzadas acerta em cheio em seu objetivo de entregar um feel good movie perfeito, fazendo chorar mas sem deprimir, relembrando um passado sombrio, mas sem levar a qualquer reflexão mais profunda.

O diretor e roteirista Tate Taylor soube extrair o melhor de seu elenco e também do best-seller de Kathryn Stockett. A trama se desenrola sem tropeços, prende e diverte. Muitos se surpreenderam quando The Help chegou ao primeiro lugar nas bilheterias dos EUA e lá ficou por três semanas seguidas (o que não acontecia desde A Origem), superando os blockbusters milionários do momento. No entanto, a verdadeira surpresa é que ainda exista o choque dos executivos quando um ótimo filme, com boas atrizes e orçamento adequado para seu roteiro e sem excessos megalomaníacos, encontre seu público com honestidade. Carina Toledo

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Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres  (27/01/12)

Se você assistiu ao original sueco ou leu a trilogia do escritor Stieg Larsson, pode achar maçante Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, com seus 158 minutos dedicados à investigação de um crime cujo culpado você já conhece. A refilmagem de David Fincher vale a pena, porém, por resgatar vários elementos do livro que o filme sueco, bastante inferior ao remake, optou por substituir.

Agora, questões. Fincher escolheu fazer de The Girl with the Dragon    Tattoo o primeiro remake de sua carreira apenas para corrigir as más    escolhas do outro filme? Seria uma forma de sinalizar à indústria que ele pode realizar filmes de encomenda com a mesma dedicação de seus projetos pessoais? (Assim como Millennium, os vindouros Cleopatra e 20.000 Léguas Submarinas também são projetos-de-produtor e seriam já os frutos a colher dessa disposição.) Ou há no material elementos que sempre interessaram ao cineasta? Embora Fincher não    goste que apontem repetições de temas entre seus filmes, essa última opção parece digna de discussão.

Rooney Mara, a Lisbeth Salander de Fincher, é a mesma atriz que viveu a namorada de Mark Zuckerberg em A Rede Social, filme que reacendeu a acusação de misoginia que sempre recaiu sobre o diretor. Não parece coincidência que Fincher tenha escolhido fazer, em seguida, um filme justamente sobre misóginos, como este Millennium. Se a relação não é intencional, certamente há uma constante: Lisbeth é uma heroína tipicamente fincheriana, brutalizada por uma sociedade de homens como era, também, a Ripley de Alien 3 ou, em menor grau, a Jodie Foster de Quarto do Pânico.

Aquela Sigourney Weaver do primeiro longa do cineasta, aliás, com sua cabeça raspada, já passava uma imagem masculinizada que agora se repete com Mara, como se a única maneira de combater os homens fosse emulá-los - e então substituí-los. Até encontrar Mikael (Daniel Craig), Lisbeth caminhava para a substituição    do homem (a vingança fálica contra o burocrata, o encontro com    outra garota na balada). Lisbeth se apega a Mikael porque encontra nele algo    que ela valoriza em si: uma morbidez, um orgulho de ser marginalizado, autosuficiente. São valores que Fincher, pelos seus filmes (a morbidez é declarada), também parece cultivar.

É muito boa a cena em que Mara começa a narrar, diante de fotos no computador, as maneiras como as vítimas foram mortas; Mikael pede-a que pare, apesar da visível empolgação de Lisbeth. É a mesma morbidez que, em outro momento, fará a hacker aceitar o jornalista como parceiro sexual digno: logo depois que ela sutura a ferida do tiro que ele tomou de raspão. O respeito à dor é caro para Lisbeth (a tatuagem feita em cima da ferida fresca no tornozelo), como já era    para as demais heroínas masculinizadas de Fincher.

Em Millennium os poucos homens que não odeiam as mulheres são potenciais alcoólatras. Nunca bebeu-se tanto no cinema. A exceção é Mikael - que olha discretamente com reprovação quando Martin (Stellan Skarsgård) vira o jarro de vinho dentro da taça do jornalista, em outra boa cena. Mikael cai nas graças de Lisbeth também porque tem, ao contrário dos demais suecos, alcoólatras ou não, um certo domínio tecnológico - a manipulação das fotos feita por Mikael é passo crucial na resolução do crime.

Assim como a morbidez e a autosuficiência, o apreço pela tecnologia - e automaticamente o desprezo diante do que é institucional e "velho"  - também é um traço do cinema de Fincher (particularmente em Clube da Luta). Embora o seu Millennium patine um pouco ao reiterar o choque do velho com o moderno - como o momento em que Lisbeth está entre um trem veloz e uma velha ponte de madeira, cena que não adiciona nada à investigação ou à trama em si - vale    assistir ao remake só para acompanhar como a hacker desdenha de tudo que    é "analógico", nem que seja só recusar-se a ajudar uma senhora a descer arquivos de papel de uma estante.

No fim das contas, Fincher adota Lisbeth porque é uma heroína bem ao seu gosto, castigada e petulante. Mas isso é misoginia? O remake não se encerra no mesmo tom irônico do outro filme (Lisbeth fingindo-se de loira, de "mulher normal"), e sim numa cena da hacker fragilizada por uma expectativa não correspondida. Termina como uma figura trágica, como já era antes, mas também inesperadamente emocional - e Lisbeth, enquanto personagem, tende a ganhar com isso. Marcelo Hessel

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Crítica  I Cavalo de Guerra  (06/01/12)

Houve uma época em que muita gente desdenhava de Steven Spielberg. Se o diretor norte-americano era praticamente imbatível quando se falava de aventura (ah, "Indiana Jones"), suas investidas pelo drama eram vítimas de um preconceito difícil de entender – mesmo "A Cor Púrpura" e "E.T.", lá na década de 1980, mostravam um talento evidente.

Após 40 anos de uma carreira com mais acertos do que erros, olhar atravessado para Spielberg hoje seria um absurdo: afinal de contas, ele domina a gramática do cinema hollywoodiano como ninguém e sabe como atingir em cheio o espectador.

"Cavalo de Guerra", que chega nesta sexta-feira (06) aos cinemas brasileiros, é uma boa prova desse domínio. O filme concorre em duas categorias do Globo de Ouro e tem presença quase certa entre os indicados ao Oscar 2012 (a lista dos finalistas será divulgada no próximo dia 25). Spielberg assistiu à bem-sucedida montagem teatral londrina de "Cavalo de Guerra", baseada no livro infantil de Michael Morpurgo, um best-seller, e chorou um bocado. O diretor viu ali a chance de fazer o mesmo com plateias inteiras.

Realmente, chances para levar o público às lágrimas não faltam. Além de situada na Primeira Guerra Mundial, que por si já aviva olhos marejados, a história tem material de sobra para trazer emoções à flor de pele, em especial por se apoiar num sentimento de inocência arrebatadora: o amor de um garoto por seu cavalo.

No interior da Inglaterra, em 1914, a família do jovem Albert (Jeremy Irvine), ancorada por sua mãe (Emily Watson, majestosa), batalha para conseguir sobreviver plantando em terras arrendadas.

O patriarca, Ted Narracott (Peter Mullan), soldado veterano e alcoólatra, num arroubo da bebida arremata um potro puro-sangue num leilão, quando precisava na verdade de um animal robusto para puxar o arado. E aí começa a magia de "Cavalo de Guerra": Joey, o cavalo, é especial. Espere, portanto, muitas demonstrações de coragem, carinho, força e inteligência.

Por se tratar de uma história escrita originalmente para crianças, há um tom inegável de conto de fadas. Doce, de voz suave e ar angelical, Albert corre alegre pelas verdejantes colinas inglesas ao som de uma retumbante trilha orquestral – impossível não lembrar de "A Noviça Rebelde".

Assim como no filme estrelado por Julie Andrews, a candura é posta em suspenso pelos horrores da guerra: sem dinheiro para pagar o aluguel ao dono das terras (o excelente David Thewlis), o velho Narracott se vê obrigado a vender Joey ao exército britânico, para desespero de Albert.

Spielberg tem experiência de sobra na Segunda Guerra Mundial – fez "O Resgate do Soldado Ryan", "A Lista de Schindler" e inúmeros projetos como produtor, da série "Band of Brothers" a "Cartas de Iwo Jima".

O primeiro embate contra os alemães surgiu como uma oportunidade para o diretor explorar um mundo em plena mudança, rumo à mecanização. Foi a última guerra em que cavalos tiveram um papel fundamental, embora a indústria armamentista estivesse a pleno vapor. Nesse sentido, uma cena é exemplar: num ataque surpresa, a cavalaria britânica, elegante, galopa com espadas em riste rumo a um acampamento germânico, apenas para ser surpreendida por um paredão de metralhadoras.

As imagens, claro, são fortes, mas nunca brutais. Spielberg comanda com desenvoltura o avanço de tropas pelas trincheiras, corpos voando pelos ares ou caindo alvejados, sem nunca mostrar sangue – afinal de contas, trata-se de uma produção da Disney. É uma forma de abordar a guerra e mostrá-la sem ser um "filme de guerra" propriamente dito. Aqui, o que importa é falar de amor, coragem, tragédia, moral, obstáculos e redenção.

Com closes frequentes em seus olhos expressivos, o cavalo (ou melhor, 14, o total de animais usados nas filmagens para interpretá-lo) serve como ponto de apoio para tudo isso. Joey passa por lugares e exércitos diferentes, sempre comovendo quem convive com ele – a não ser, obviamente, os personagens que fazem as vezes de vilão. Piegas? Sem dúvida.

Spielberg acerta ao conseguir, no entanto, caminhar no limite, sem resvalar para o mau gosto. É o sentimentalismo friamente calculado, infalível.

Não é difícil imaginar a satisfação do cineasta atrás do monitor, pedindo o zoom na lágrima dolorida de uma menina francesa, ou na mesa de edição, mexendo os botões para aumentar a trilha sonora melosa nos momentos-chave. Se eventualmente ele se alonga demais, perde de vez o pé na realidade ou exagera no açúcar, também é capaz de criar cenas espetaculares, de cortar o coração. Sair do cinema incólume é tarefa das mais complicadas.

Mesmo sem a ter a propriedade de Martin Scorsese, Steven Spielberg ainda fez em "Cavalo de Guerra" sua homenagem ao cinema dourado de Hollywood. De clássicos da Primeira Guerra ("Nada de Novo no Front") a obras-primas de John Ford (a cena final é puro "Rastros de Ódio"), o diretor não economizou nas referências.

Não espanta, portanto, que cada fotograma de "Cavalo de Guerra" tenha praticamente um carimbo escrito "Oscar". O filme não deve ganhar os principais prêmios, mas com certeza ficará na linha de frente. Com mérito.

Marco Tomazzoni

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Crítica  I  Imortais  (30/12/11)

Apenas dois filmes irão estrear nesta sexta-feira (30) dentro do circuito comercial, na antevéspera do réveillon. Nada mais natural, já que o movimento nos cinemas costuma diminuir nesta época do ano. Assim, o destaque da semana fica a cargo do longa-metragem "Imortais", dirigido por Tarsem Singh, também responsável por "Espelho, Espelho Meu", inspirado na fábula da Branca de Neve, com Julia Roberts no papel da Rainha e que deverá estrear em 2012. "Imortais" é produzido pela dupla Mark Canton e Gianni Nunnari, que também trabalhou no longa "300", com Rodrigo Santoro (2007).

O filme segue a linha de "300", com personagens fortões e várias cenas sangrentas de batalhas. Também lembra "Fúria de Titãs" ao misturar deuses gregos e bestas mitológicas. O problema é que o roteiro não está minimamente preocupado em ser verossímil com a mitologia. O resultado é um apanhado de histórias e personagens que nunca tiveram nenhuma relação, mas que, na produção, parecem ser íntimos. Um desserviço àqueles que querem conhecer mais sobre a mitologia grega.

Na história, o Rei Hipérion (Mickey Rourke) declara guerra contra os gregos e planeja libertar os Titãs que estão presos no Monte Tártaro. Para isso, ele busca o arco de Epirus, forjado no Olimpo pelo deus da guerra, Ares. Para impedi-lo de achar o arco, Teseu, um plebeu, lidera um exército de rebeldes, além de contar com a ajuda de deuses do Olimpo, como Zeus e Atenas.

O problema é que, na mitologia grega verdadeira, Teseu nunca foi plebeu e se tornou rei depois de matar o Minotauro no labirinto. Até há a cena da morte do Minotauro no filme, mas não é tão importante assim e, depois dela, Teseu não vira rei. Henry Cavill (o novo Super-Homem) vive o papel de Teseu e Freida Pinto é a mocinha Faedra, um oráculo que é perseguido pelo rei Hipérion. Já a australiana Isabel Lucas encarna a deusa Atenas.

Apesar de já terem desempenhado bons papéis em outros filmes, a atuação dos atores se resume a poses e gritos de raiva contra o mundo. Até seria possível considerar o filme uma boa diversão, mesmo com os desvios das histórias originais, mas uma coisa é inconcebível: deuses como Zeus, Atenas e Poseidon são mostrados como fracos e passíveis de erros e, pasmem, mortais. Como deuses podem ser mortais?

Essa é uma pergunta que a trama não responde. Um deus mortal é algo inaceitável até mesmo para um filme como esse. O que não deixa de ser irônico, já que o título do filme é "Imortais". Tanta mudança nas figuras mitológicas faz lembrar o filme "Percy Jackson e o Ladrão de Raios" (2010), que altera, sem qualquer critério, feitos históricos.

Os efeitos especiais, em compensação, são bem-feitos. A vila onde vive Teseu, nas encostas do mar Egeu, é linda. Os cenários das batalhas, como o forte onde os gregos se abrigam para lutar contra o Rei Hipérion, também impressionam. Essa majestosa construção parece com o forte do Abismo de Helm, do filme "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" (2002).

O espectador que for assistir a Imortais esperando encontrar um filme semelhante a "300" deve sair decepcionado. O máximo que verá será um punhado de efeitos especiais em uma história sem pé nem cabeça.  Agência Estado

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Missão: Impossível 4 - Protocolo Fantasma  (23/12/11)

Ainda não fizeram um filme da franquia Missão: Impossível que deixe o espectador sair da sala desapontado. Pode ser que depois, olhando para trás, você veja que algum filme (*cof* M:I-II *cof*) não era tão legal assim, mas na série o importante é cumprir a missão daquele instante e sair de cabeça erguida. E Brad Bird, diretor que vem de um premiado passado fazendo animações (Gigante de Ferro, Os Incríveis, Ratatouille), cumpre muito bem a sua. Ele traz para a franquia estrelada e produzida por Tom Cruise pitadas de humor intencional que não estavam presentes antes. E o faz sem exagerar, apenas dando espaço para o público poder baixar  a guarda por alguns milissegundos, enquanto prepara a próxima sequência de ação, que será ainda mais impressionante que a anterior.

A complexidade toda da história e de cada ação do grupo liderado por Ethan Hunt (Cruise) e formado por Benji (Simon Pegg reprisando o papel de M:I-III) e os novatos Jane (Pauta Patton) e Brandt (Jeremy Renner) é explicada em detalhes na tela, não deixando muitas dúvidas de que eles sabem o que estão fazendo e que, quando o plano dá errado, também estão preparados para se virar, improvisando com o que têm nas mãos. Assim, eles se cercam também da certeza de que qualquer um que esteja entrando agora na sala de cinema vai entender o filme e também a franquia, mesmo se não tiver visto os capítulos anteriores.

Uma das diferenças de M:I-IV para os anteriores é a de que desta vez o grupo não é escolhido por Hunt. Depois de ser resgatado de uma prisão russa, ele já engata  uma missão: roubar códigos secretos de dentro do Kremlin e, assim, impedir que um terrorista coloque suas mãos no arsenal nuclear da antiga União Soviética. O plano, porém, sai errado, e a agência secreta em que trabalham, a IMF (Impossible Missions Force), é apontada como a culpada por uma enorme explosão em Moscou. O governo dos Estados Unidos não vê outra alternativa que não seja a desativação imediata da operação, colocando seus agentes na lista de procurados. Agora cabe a Hunt e aqueles que sobraram ao seu lado procurar quem armou para cima deles e ainda impedir uma catástrofe que pode terminar na guerra nuclear de que escapamos durante a Guerra Fria.

Antes de Moscou, o filme já passou por Budapeste e vai ainda para Dubai antes de ter o seu clímax em Bombaim e desfecho nos Estados Unidos. Este espírito global tão latente não chega a ser novidade na franquia, mas é exacerbado aqui e só faz bem ao filme. Cada uma das cidades tem sua grande sequência, sendo que a mais alardeada delas, no alto dos 828 metros do Burj Khalifa, é de causar vertigem a trapezista. Melhor ainda se for vista nas telas gigantes do IMAX - e aqui vale o comentário: se você puder ver o filme em IMAX, veja! Seguindo os passos de Christopher Nolan, Bird filmou várias sequências usando as câmeras de 70mm do sistema, que dão uma clareza de qualidade espantosa e criam uma imersão muito maior do que o 3-D.

Dito isso, sim, o longa é repleto de momentos "ah vá!", mas este é o seu beabá. É isso que o tornou tão empolgante, assim como as gadgets e as mensagens que se destróem depois de 5 segundos. Algumas delas, já meio enferrujadas, diga-se de passagem. De luvas que grudam em vidro a projetores 3D portáteis e lentes de contato scanner, tudo é usado para divertir o público, ora com vislumbres do futuro, ora como mera piada.

Entre perseguições em tempestades de areia, carros despedaçados e traições, Bird e os roteiristas André Nemec e Josh Appelbaum não se apressam em formar pares românticos dentro da equipe, escapando de um dos maiores clichês do gênero. Se você se lembra do  terceiro filme, Cruise estava apaixonado por Julia (Michelle Monaghan) e não escondia isso de ninguém. Agora, as consequências desse amor chegam novamente para lhe cobrar os juros. Seria muito mais fácil colocá-lo junto com a bela Jane, mas não é assim que se constrói personagens e Bird sabe como ninguém apresentar arcos dramáticos e desenvolvê-los, deixando até ratos e Tom Cruises mais humanos... Marcelo Forlani

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"Roubo nas Alturas" explora com humor a crise financeira  (16/12/11)

"Roubo nas Alturas", de Brett Ratner, não é uma comédia rasgada como faz supor a presença de Ben Stilller e Eddie Murphy, que interpretam ladrões que revivem o espírito de Robin Hood, roubando de um rico para redistribuir aos explorados. Com humor mais contido, o diretor prefere explorar a cuidadosa engenharia desenvolvida pela dupla para a aplicação do golpe, arrancando alguns sorrisos com as confusões que ameaçam a cada momento colocar tudo a perder.

Stiller é Josh Kovacs, gerente de um condomínio de luxo em Nova York, administrado com rigor militar para não importunar os moradores. Para zelar por clientela tão endinheirada e exigente, eles têm que trabalhar exaustivamente com a precisão de um relógio e, ao mesmo tempo, ser invisíveis. Não podem nem mesmo ter telefone celular.

Um dos moradores mais importantes é o megainvestidor Arthur Shaw (Alan Alda), com quem Josh disputa partidas de xadrez pelo computador. O equilíbrio no edifício Tower Heist é rompido com a surpreendente prisão do investidor por agentes do FBI. Seus negócios entraram em colapso e as autoridades acusam-no de fraude. Ele perdeu toda a fortuna da noite para o dia.

O que seria apenas um problema pessoal do empresário ganha uma dimensão maior quando Josh descobre que quase todos os funcionários, que confiavam no faro do investidor, entregaram-lhe suas economias para serem aplicadas no mercado financeiro. Todos perderam a poupança de uma vida.

A revanche de Josh começa a ser levada seriamente em consideração quando ele descobre pela policial que chefia a equipe do FBI (Tea Leoni) que Shaw pode ter escondido 20 milhões de dólares antes de ter praticado a fraude. É o bastante para que o gerente desconfie que o dinheiro esteja numa parede falsa do apartamento do investidor, que havia sido reformado pouco antes.

Josh convence outros funcionários a aderirem ao plano e monta um exército Brancaleone de ladrões totalmente inexperientes, mas que supostamente possuem alguma habilidade pessoal que poderá ser útil na hora H. A grande ajuda pode vir de um "especialista", o ladrão pé-de-chinelo Slide (Eddie Murphy), que repete as caretas que já exibiu em outras comédias, mas, mesmo assim, dá ao filme uma veia cômica mais dinâmica.

Ben Stilller e Eddie Murphy são os personagens principais da comédia "Roubo nas Alturas"

"Roubo nas Alturas" estreou em novembro nos Estados Unidos, no auge do movimento Ocupe Wall Street, de protesto contra a crise econômica do país. A revolta pelo alto preço pago pela população por causa dos desmandos do setor financeiro tem no personagem de Alan Alda a personificação do mal que todos identificam. Por isso, a figura de um bom ladrão, nos moldes de Robin Hood, é festejada com tanto entusiasmo entre os funcionários do edifício Tower Heist. Reuters                   

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Crítica  I A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1  (18/11/11)

Gosto de pensar que eu estava me guardando para este quarto Crepúsculo,    para Amanhecer, com todas as suas promessas de nonsense, como se o útero arrebentado de Bella Swan fosse abrir para mim as portas desse maravilhoso fenômeno fílmico-literário, mas o fato é que eu não vi os filmes anteriores da saga por mero desinteresse.

Sempre houve curiosidade mórbida, claro, mas não era mais forte que a certeza de já ter adivinhado, mesmo sem ver os filmes, todas as obviedades da metáfora central da série, o vampirismo como alegoria da perda da virgindade. Pois eis que assisto a Amanhecer, e as constatações imediatas são duas:

1) Quando reconheço a autora da série, Stephenie Meyer, fazendo uma ponta no início do filme como convidada do casamento de      Bella e Edward (o produtor Wyck Godfrey interpreta o padre),      percebo que conheço Crepúsculo até demais. Não se menospreza o poder de osmose de um produto que ocupa 50% do total de salas      de cinema do seu país;

2) O romantismo neoconservador da escritora é muito mais obsessivo do que eu poderia supor. Agora dá pra entender por que o Brasil tem a maior base de fãs da série fora dos EUA, num momento em que o país mais católico do mundo demonstra a extensão do      seu reacionarismo... Mas voltemos ao assunto.

Não deixa de ser melancolicamente irônico que o diretor de Amanhecer seja o mesmo de Kinsey.  Em seu melhor filme, Bill Condon retornava aos castiços    anos 1940 para desmistificar a nossa sexualidade, na figura do "Doutor Sexo" Alfred Kinsey, e nessa comparação Amanhecer  representa o absoluto retrocesso. Não é fácil ser mulher - pra saber disso não é preciso ser uma - mas ser uma mulher escrita por Stephenie Meyer é muito pior.

Principalmente porque Amanhecer, embora aparente resgatar figuras    de uma certa tradição moral e religiosa (o homem forte e provedor,    a mulher frágil mas fértil), na verdade está restabelecendo    só os tabus associados a essas figuras.

Primeiro há a figura opressiva do macho. Edward não é "virgem" - oportunamente, o filme começa contando-nos que nos anos 1930 ele caçava mortais para se alimentar -, o que já estabelece entre ele e Bella uma hierarquia que não é somente a do imortal diante da mortal, mas também do homem experiente diante da menina casta de 18 anos. É óbvio que Bella transará, é por isso    que ela e todos nós esperamos, mas Meyer e Condon trabalham essa expectativa    de forma doentia. Daria pra fazer um ensaio só sobre a fixação por toras; um vampiro carrega uma tora, a casa de madeira na floresta é cercada por árvores grossas, a discussão dos lobos acontece no meio de um monte de toras...

Sendo uma mulher que cresceu na América profunda, é compreensível    que as projeções fálicas de Stephenie Meyer envolvam muita lenha, muita rusticidade, mas não tem desserviço maior para as adolescentes do século 21 do que associar o sexo à imagem violenta da madeira ("wood", em inglês, é também uma gíria para ereção). Diante disso, os outros símbolos canhestros de masculinidade em Amanhecer (os vampiros assistem a futebol americano; os lobisomens, como são "exóticos", jogam soccer) são inofensiva piada.

Pela lógica, um macho só é macho ante mulheres fracas. As de Amanhecer são fracas não só por dependência    (Bella é filha de uma figura de autoridade, um policial, então o vampiro no fundo é só uma autoridade que substitui essa anterior) como também fracas de espírito: elas dividem-se entre as servis (a vampira melhor amiga), as loucas (a vampira que não se controla) e    as rejeitadas (a índia, a amiga do colégio). Bella não se encaixa em nenhum desses três perfis porque tem a "honra" de ser A Escolhida. A ela é reservado o privilégio maior do mundo de Stephenie Meyer: o sacrifício de ser mãe.

O sobrenome de Bella é Swan, "cisne", não por acaso. Os cisnes-brancos são monógamos por natureza, e na sua versão poética, eternizada nos balés, passam a vida emudecidos - até que cantam uma bela e triste canção antes de morrer. Não é preciso forçar na analogia para ver em Amanhecer um grande canto do cisne, em que a virginal Swan abre mão da própria vida no momento em que o mágico suco do vampiro a faz cantar. Outro tabu proscrito que o filme reabilita: a fertilização como fim da vida.

Amanhecer é um filme nocivo porque todas essas atribuições sociais obviamente datadas são tratadas como se fizessem, desde sempre,    parte das leis da natureza. O próprio sobrenatural é reformatado    para se enquadrar no mundo natural, científico - e a "sequência    CSI" pelo interior do corpo de Bella é um exemplo disso. Deve ter gente que    pira com essa espécie de teoria do Design Inteligente contada em forma    de conto de fadas, mas eu não tive, francamente, muita paciência    de pesquisar todos esses elementos dentro da mitologia da série. Como diabos um vampiro gera veneno, afinal?

Aliás, a título de curiosidade, acredito que seja importante    dizer que a cena do parto não tem nada de especial: são efeitos    de câmera demais e sangue de menos. A de Ligeiramente Grávidos é muito mais chocante. Ainda na linha confessional, gosto também de pensar que a transmutação a que Kristen    Stewart é submetida neste filme tem muito de David Cronenberg - no sentido em que a deformação física espelha a deformação    da identidade - mas se vou ofender algumas twilizetes (é assim que chama?) não preciso também xingar os fãs do canadense.

Só pra completar, uma ironia (já que Bill Condon nos brindou    com aquela ironia do começo): o mais próximo de uma "mulher    forte" que Amanhecer tem a oferecer é a lésbica    Barbara Gruska, que canta na dupla Belle Brigade a canção que encerra o filme - o velho truque de colocar uma música    animadinha durante os créditos finais, pra tudo mundo sair achando o filme o máximo.

Falando em final, Amanhecer tem um único mérito, que    é o de contar uma história com um começo, um meio e um    fim satisfatórios (muito mais do que qualquer Harry Potter, todos cheios de começos mal explicados e finais interrompidos). Não senti a necessidade de ver os filmes anteriores e sei que a guerra final com os Volturi é a maior enrolação. Em relação    ao arco de Bella, a Parte 2 de Amanhecer é absolutamente dispensável, agora que ela já foi devidamente deflorada em nome dos dogmas e dos interesses de quem quer que seja.

Assim, encerro aqui este texto. Tive a minha primeira experiência com Crepúsculo e acredito que tenha sido também a última. Marcelo Hessel
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Crítica  I Gigantes de Aço  (21/10/11)

Sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, desbancando promessas como a refilmagem de "Footloose", a aventura "Gigantes de Aço" pode parecer simples, mas tem DNA poderoso. Produzido por Steven Spielberg, estrelado por Hugh Jackman e dirigido por Shawn Levy, o filme é baseado em um conto ("Steel," de 1954) de Richard Matheson, celebrado autor de livros e roteiros de fantasia, terror e ficção científica.

O escritor é conhecido por colocar pessoas comuns em situações excêntricas.
Ele contribuiu para a série "Além da Imaginação" e escreveu "Eu Sou a Lenda", base dos filmes "Mortos que Matam" (1964, com Vincent Price), "A Última Esperança da Terra" (1971, com Charlton Heston) e, finalmente, "Eu Sou a Lenda" (2007, com Will Smith). Foi de Matheson também a ideia do primeiro filme de Spielberg, "Encurralado" (1971).

Em "Gigantes de Aço", no entanto, a genética dos criadores mudou os rumos do filme. Em um futuro próximo, 2020, os esportes de luta foram banidos pela intensa violência que apresentavam. Isso porque as pessoas ficaram tão afoitas para ver sangue nos ringues que, no fim, precisaram substituir os lutadores por robôs. É nesse contexto que habita Charlie Kenton (Hugh Jackman), um ex-boxeador azarado, às voltadas com máquinas de briga sucateadas para conseguir sobreviver.

Seria uma situação chocante sob diversos pontos de vista, mas o insólito desenvolvimento desse relacionamento é bem trabalhado por um roteiro que aposta no humor ácido, pelo menos a princípio, para integrar os personagens. Chega a ser assustadora a naturalidade com que o jovem ator Dakota Goyo diz "se me vendeu, pelo menos mereço a metade do pagamento" - que depois se transforma em piada.

Em outra cena que demonstra o desleixo do pai com o filho, Max cai de um penhasco dentro de um ferro velho e é salvo por um robô, que estava por ali semienterrado. O rapaz se apega a seu salvador, que recebe o nome de Atom, e força o pai a colocá-lo em lutas, mostrando que um campeão pode vir de qualquer lugar, até mesmo do entulho. Atom passa a ser a força motriz para a relação familiar dar certo.

John Gatins, Dan Gilroy e Jeremy Leven, que assinam a adaptação da história e o roteiro, mantêm a complexidade moral de pessoas comuns em situações bizarras (um dos temas de Matheson). No entanto, introduzem novos elementos, como a relação entre o garoto e o pai (tão cara a Spielberg) e um humor condescendente, do qual o diretor canadense Shawn Levy (de "Uma Noite Fora de Série") também gosta.

Destaque também para as referências à franquia "Rocky - Um Lutador", em especial à última luta, quando o campeão Zeus (pai de Apollo) é desafiado por Atom. Aliás, as lutas são outro ponto forte do filme, cujos movimentos foram capturados pela produção a partir de lutadores reais, supervisionados pelo astro do boxe Sugar Ray Leonard.

Em seus devaneios futurísticos (muito embora o futuro dele fosse a década de 1970), Matheson mostra um mundo cada vez mais desumanizado. "Gigantes de Aço", no entanto, tem como mensagem o oposto. Piadista, Levy disse que seu filme se passa em 2020 porque não queria uma ficção científica extrema. Em entrevista, chegou a dizer: "Queria o mundo mais familiar (para os espectadores). Um aparelho de celular pode mudar em 10 anos, mas o jantar vai continuar parecendo um jantar." Reuters

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Crítica  I  A Hora do Espanto  (07/10/11)

A maior defesa a ser feita a respeito de A Hora do Espanto (Fright Night, 2011) é que o filme é tão superficial quanto o clássico oitentista homônimo em que foi baseado. O roteiro vazio, em que situações com potencial de desdobramento interessante em metáforas para a adolescência e responsabilidade, perde-se nas cenas de ação do arrastado terceiro ato.

Soluções mais elaboradas, porém, neste caso parecem curiosamente desnecessárias, tamanha a diversão que esse terror, que revisita tempos mais simples, oferece.  Se não apresenta nada de inteligente, ao menos a produção não ofende ou busca ser algo mais do que efetivamente conseguiria ser. Menos sexualizado que o original (é um filme da Disney, afinal), o longa tem um tom interessante, de comédia de horror, que era tão comum há 20 anos e parece esquecido hoje. É simplesmente divertido assisti-lo e esses dois aspectos, os sustos e as piadas, são bem equilibrados.

O diretor Craig Gillespie, que despontou com o ótimo A Garota Ideal,  faz um bom trabalho com o seu elenco. Colin Farell parece divertir-se na pele do vampiro Jerry, o vizinho misterioso que se muda para a casa ao lado de Charley Brewster (Anton Yelchin, de Star Trek), um "ex-nerd" que, alertado por um amigo antigo (Christopher Mintz-Plasse), começa a desconfiar do sujeito bonitão que está eternamente reformando a casa. Toni Collette (que trabalhou com Gillespie em United States of Tara), vive a mãe que não acredita no filho -  que é forçado a procurar a ajuda de um mágico ocultista de Las Vegas,  Peter Vincent   (o escocês David Tennant, de  Dr. Who), para livrar-se da praga.

É um tremendo alívio ver vampiros serem tratados como se deve: queimando no    sol, morrendo com estacas no peito, não aparecendo em reflexos, temendo cruzes    e sendo sedutores - o pacote clássico completo. Sem as invencionices de Crepúsculo,    que, aliás, é satirizado com uma ótima piada. Em tempos em que os predadores    definitivos da mitologia viraram românticos emos, A Hora do Espanto resgata valores sanguessugas que merecem ser lembrados. "Ele é o tubarão    em Tubarão", explica o personagem de Mintz-Plasse (que parece    saído de Os Garotos Perdidos, outro clássico de uma era diferente).    Se A Hora do Espanto apresenta alguma modificação relevante ao mito dos vampiros, é o apreço de Jerry por uma boa cerveja...

Fica a ressalva, no entanto, ao 3-D - um dos piores (talvez o pior) do cinema    recente. Definitivamente não pague a mais por ele. Fora uma cena em que fagulhas dançam na tela com um efeito bastante agradável e alguns segundos do clímax  contra o vampiro, a escuridão e os tons dessaturados do filme simplesmente arruinam a tridimensionalidade. Em muitos momentos é até difícil discernir o que está acontecendo. Prefira mesmo o 2D e não entregue sua jugular à sede do estúdio por uns trocados a mais. Érico Borgo

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