Crítica I Plano de Fuga (18/05/12)

Mel Gibson roteiriza, produz e interpreta ladrão que fica detido em uma penitenciária bizarra

Ainda no começo deste ano foi divulgado que Plano de Fuga (Get The Gringo, 2011), novo filme roteirizado, produzido e estrelado por Mel Gibson  seria lançado nos Estados Unidos direto em Video on Demand (sistema de pay per view que deixa os espectadores pagarem para ver o filme em casa, quando quiserem), pulando assim uma estreia nos cinemas.

Tal atitude pode ser facilmente entendida pela atual ruptura do ator/cineasta com Hollywood, depois de andar bebendo demais, ter arranjado problemas com a ex-esposa e, principalmente, ter desfilado um anti-semitismo justamente na terra que é controlada - em grande parte - por judeus. O boicote já havia prejudicado sua participação em Se Beber, Não Case! Parte II (The Hangover Part II) e parece longe de acabar. Enquanto isso, ele vai fazendo seus filmes independentes.

Plano de Fuga é tudo isso e ainda uma auto-prova de que ele ainda aguenta estrelar um filme de ação, correndo, atirando e mantendo a pose aos 56 anos. O projeto foi rodado majoritariamente na mesma cidade de Veracruz, no México, onde ele filmou Apocalypto e o  diretor estreante é o argentino radicado no México  Adrian Grunberg, que foi primeiro assistente de direção de Gibson no épico maia. A falta de experiência aparece em alguns momentos, mas não compromete.

O filme começa com uma perseguição de carros na fronteira entre Estados Unidos e México. Após ser preso, o protagonista é logo levado para a cidade-presídio de "El Pueblito". O local, ele vai descobrir, é comandado por uma família de bandidos locais, que dá ordens até mesmo no diretor do presídio e tem por ali tratamento de rei. O comércio local é liberado e o pagamento não se restringe apenas a cigarros. Após usar suas artimanhas para conseguir os primeiros trocados, que lhe renderão um certo conforto, Driver (Gibson) é abordado por um menino de 10 anos e vai aprendendo com ele mais sobre o local e seus costumes.

O roteiro - com final bastante previsível, mas um bom desenvolvimento - mostra tudo o que há de mais politicamente incorreto. É boca suja, todos os mexicanos são corruptos e corruptíveis, o local é um grande lixão superpovoado e o menino faz de tudo para conseguir saciar seu vício com a nicotina. Este cenário, que poderia perfeitamente ser mostrado em um filme ambientado no Brasil, é tão ou mais interessante que os próprios personagens - principalmente os secundários, que são completamente bidimensionais.

Além de toda a ação e a parte detetivesca de descobrir por que ele está ali, o que ele roubou e de quem, e como fará para sair daquela, o filme também se utiliza bastante do humor. Um humor diferente, que não tem medo de arriscar para arrancar um sorriso do rosto do espectador, e até a gag física, do tapa na cara do palhaço - literalmente.

Ainda no cenário mexicano, Mel Gibson vai em breve estrelar como o vilão de Machete Kills. Resta saber quando é que Stallone o chamará para entrar para a trupe dos seus Mercenários. Em Plano de Fuga ele prova mais uma vez que ainda é um ótimo astro de ação e mantém a sua cara e jeito de louco desde os tempos de Máquina Mortífera.  Marcelo Forlani

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Os Vingadores - The Avengers   (26/04/12)

Em contraste com o cinema focado em um ou dois personagens, o filme dá a vários protagonistas aproximadamente o mesmo tempo de tela e importância dramática. Esse formato é mais comum na televisão, já que garante aos roteiristas tempo para trabalhar isoladamente cada personagem, por episódio.

Ainda que tenha pouquíssima experiência no cinema como diretor, Joss Whedon conhece muito bem como trabalhar múltiplos protagonistas nas telinhas. Em séries criadas por ele, como Buffy - A Caça-Vampiros, Angel e Firefly, Whedon explorou universos fantásticos sob o ponto-de-vista de distintos guias, mas sempre mantendo o foco em uma linha narrativa principal. Sua escolha para a primeira grande fusão de séries  nos cinemas em Os Vingadores - The Avengers (2012), portanto, não poderia ter sido mais inspirada.

Com a experiência da TV, ainda que sob o tempo exíguo das produções comerciais de Hollywood, o diretor - que também trabalhou o roteiro do filme - soube como manejar as participações de cada um de seus superprotagonistas, dando a eles funções específicas dentro da trama de Os Vingadores. Junta-se a essa habilidade o fato de que Whedon é um tremendo nerd: conhece cada um dos seus jogadores e trafega com desenvoltura pelo universo dos super-heróis. São dele, por exemplo, os primeiros arcos de uma das mais empolgantes séries em quadrinhos dos mutantes da Marvel, Os Surpreendentes X-Men.

Lendo a HQ, fica fácil entender como ele conseguiu o emprego na cobiçada superprodução do Marvel Studios. Já estava tudo lá: o equilíbrio entre o tempo de cada herói, a ação desenfreada e imaginativa, a história central que mistura relações humanas e um desafio mortal, e os momentos de pura paixão nerd. Obviamente, havia a dúvida se Whedon conseguiria levar sua experiência na TV e HQs para o cinema, já que o único filme que havia dirigido até então era Serenity (2005), uma adaptação para a tela grande da série Firefly.

Felizmente, o roteirista experimentado provou-se à altura do desafio. Ainda que seja um tanto pasteurizado em termos estéticos (não diferindo de qualquer outro blockbuster de grande orçamento da última década), Os Vingadores  é perfeitinho dentro de suas pretensões. É, afinal, um filmão da Marvel - e como tal, obedece a cinco décadas (!) de tradição da chamada "Casa das Ideias". Não deixa de ser, assim, uma versão modernizada da primeira aventura dos Vingadores, de 1963: nela, heróis solitários se reúnem - depois de algum desentendimento gerado pelo inevitável conflito de egos que acompanha grandes seres - para enfrentar uma ameaça comum, engendrada pelo manipulador, ganancioso e inescrupuloso vilão Loki.

Em espírito, o filme é idêntico à HQ criada por Jack Kirby e Stan Lee. Com fãs apaixonados como Whedon e o presidente da Marvel, Kevin Feige, no comando, não poderia mesmo ser diferente. É curioso notar como o Agente Coulson - personagem criado especificamente para o cinema, interpretado por Clark Gregg -, é uma maneira desses executivos/realizadores/fãs se colocarem ali, no meio da ação. Coulson, que se revela nerd, é fundamental na união dos Vingadores, assim como o foram Whedon e Feige.

Para quem, como eu, cresceu lendo essas histórias e acompanha o Universo Marvel como um casamento de décadas (nos bons, maus e péssimos momentos), portanto, ver a reunião das franquias Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk é uma vontade realizada. E vê-la BEM realizada, um deleite. Cenas específicas apelam à memória emotiva e ajudam a relevar, sem qualquer esforço, pequenos problemas, como o primeiro ato, que é bastante arrastado em comparação ao explosivo e superelaborado clímax (Michael Bay poderia aprender aqui uma lição de como concatenar personagens e focos de ação distintos em um todo coeso).

Mas mesmo nas longas sequências em que pouco acontece e a trama embola um pouco (também um tradição de Stan Lee, o mais verborrágico de todos os quadrinistas), há o que se desfrutar,  como Robert Downey Jr., a cola que une o grupo, em cena nas melhores interações com o elenco, em especial o novato na série Mark Ruffalo. Os debates entre os dois cientistas (Tony Stark e Bruce Banner) e entre ele e Tom Hiddleston (fantástico como o Loki e muito mais à vontade que em Thor) são tão divertidos quanto a invasão da armada alienígena que aflige Nova York ao final.

Um filme de ação bem estruturado, que explora os pontos fortes de todo seu elenco e dá ao fã - leitor ou novato, que conheceu esse universo no cinema - exatamente o esperado, Os Vingadores - The Avengers entra desde já como mais um marco na celebrada história da Marvel. Só nos resta torcer para que demorem algumas décadas para que as famosas burradas editoriais da empresa cheguem às telas. Por enquanto, os Agentes Coulson por aí agradecem! Érico Borgo

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Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios   (20/04/12)

O que faz uma musa é o olhar daquele a quem ela inspira. Por definição, então, não existem musas por si só. É um conceito que pode soar machista porque implica posse, e desde Crime Delicado Marçal Aquino e Beto Brant têm se dedicado a problematizar esse tipo de relação nos filmes do diretor, que Aquino roteiriza.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, o mais celebrado romance do escritor, já havia servido de inspiração para Brant e o codiretor Renato Ciasca fazerem O Amor Segundo B. Schianberg. Agora eles partem para a adaptação literal. É o mais ambicioso e difícil trabalho do trio, como se toda a obsessão temática que os acompanha desde 2005 - ano da conclusão de Crime Delicado e da publicação de Eu Receberia... - fosse uma preparação para este filme.

Eu Receberia... conta a história de um triângulo amoroso entre o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado), a ex-prostituta Lavínia (Camila Pitanga, possuída) e o pastor Ernani (Zécarlos Machado) no Pará, onde uma população ribeirinha assiste ao desmatamento da floresta. A trama não linear vai e vem no tempo para mostrar como Ernani tira Lavínia das ruas e como, já casados, os dois agem em defesa da comunidade na Amazônia - onde, morando a trabalho, Cauby se encanta com a mulher.

 

O filme elimina personagens secundários do livro para se concentrar no triângulo. As únicas cenas que não envolvem as relações do trio são aquelas com a presença do jornalista Viktor Laurence (Gero Camilo) - e ainda assim os insights de Viktor servem para iluminar o que acontece no triângulo. A reflexão sobre o filme, portanto, já é diegética, acontece dentro da ação. Não por acaso, Viktor, com seu comportamento de comentarista onisciente, será responsável pelo evento que desata os nós do triângulo.

A concisão extrema - Eu Receberia... se desenrola em poucas cenas, ligadas por elipses bem espaçadas - acaba gerando associações frágeis (a "posse" de Lavínia relacionada à questão da propriedade na Amazônia) mas torna mais urgente e focada a discussão sobre a apropriação da musa.

 

A divisão é clara. Cauby, o fotógrafo, faz de Lavínia  seu objeto (o filme já abre com ela sendo fotografada, como se Lavínia só existisse diante de nós filtrada pela lente dele). Já Ernani, o pastor, encontra na prostituta uma voz a ser desperta pelo seu dom da palavra, o que também a torna sua musa (aquela Lavínia de Cauby, que além de exuberante mostra-se bem articulada, sem dúvida é também a Lavínia de Ernani).

As intensas cenas de sexo de Eu Receberia... acontecem justamente após os momentos de "negociação" da posse: depois da sessão de fotografia de Cauby e depois que Ernani ora pela alma de Lavínia. Uma musa constituída pela imagem e pelo verbo, pronta a ser apreciada. Sem essa apreciação - situação que Lavínia enfrenta no filme quando não tem Ernani ou Cauby por perto - a personagem literalmente se desarticula.

Parece uma equação simples, mas na "vida real" a apropriação da musa (ou qualquer outra idealização) obviamente é mais complexa. O crítico de teatro vivido por Marco Ricca em Crime Delicado achou que fosse, sim, bastante simples - afinal, como crítico, ele reduz objetos a uma razão analítica - e quebrou a cara. Em Eu Receberia... a violência também surge para mostrar aos personagens que uma relação negociada não é uma relação definida.

"Não há paixão sem luta", diz um personagem a certa altura. "Santa é a carne que peca", emenda  Viktor, na fala mais espirituosa do filme. O corpo pode ser um santuário (só pra ficar no léxico religioso, que no fim das contas nem é tão diferente assim do vocabulário de um esteta diante de seu objeto de culto), mas provar essa adoração do corpo exige sacrifícios.  Marcelo Hessel

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Crítica  I  A Toda Prova   (13/04/12)

Em A Toda Prova (Haywire), Steven Soderbergh continua a explorar um interesse inciado em Confissões  de uma Garota de Programa: a contratação de protagonistas  que tenham relação mais realista com suas personagens do que atrizes convencionais. Se no filme de 2009 ele colocou a atriz pornô Sasha    Grey para viver uma profissional do sexo, aqui dá o papel de uma agente especializada em combate corporal à estrela do MMA Gina Carano.

No thriller de espionagem escrito por Len Dobbs (que  já fez Kafka e O Estranho com Soderbergh), uma ex-oficial  de operações especiais, Mallory Kane (Carano), trabalha para um grupo privado de ações militares (administrado por um empresário interpretado por Ewan McGregor), até que é traída por um integrante da sua própria equipe - e parte em uma jornada de vingança.

- Trailer de “A Toda Prova”, #1:

Carano está acompanhada por um elenco de primeira, que inclui Michael    Fassbender,Michael Douglas, Channing Tatum, Antonio Banderas, Bill Paxton, Michael Angarano e Matthieu Kassovitz. Um monte de  talentos para compensar a dureza da atriz, que tem aqui seu primeiro papel de destaque. Mas tudo o que Carano - que teve até sua voz alterada digitalmente para o filme - deve em termos de atuação ela compensa com uma  presença poderosa, que faz valer cada cena de combate em tela. Não  há treinamento preparatório para atriz no mundo que se equipare    à postura e golpes de Carano. Em determinadas cenas é como se    o corpo dela se recusasse a aceitar o "corta!" e quisesse continuar    destruindo seu oponente. Não por acaso, vários dos atores que    tiveram cenas de luta com ela disseram ter saído feridos das gravações.

Pôster de “A Toda Prova”, novo filme de Steven Soderbergh©Reprodução

Mas ainda que as cenas de pancadaria sejam empolgantes, a trama do suspense    - fotografado cheio de estilo por Soderbergh, sob pseudônimo - é    bastante superficial. Há muito pouco roteiro para a duração  do filme, que se apoia então em tempos mortos e longos takes (a edição também é do cineasta), tornando este quase que um filme de ação iraniano. Mesmo que tenha sido a intenção aqui não desenvolver  demais personagens e relações, mantendo sua aura de mistério, a história simplista de vingança não tem estofo suficiente.    Nada que uns minutos a mais de Gina Carano espancando todo mundo não    tivessem resolvido, porém... Érico Borgo

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Crítica I  Jogos Vorazes  (23/03/12)

Os fãs frequentemente reclamam quando estúdios e mídia tentam vender novas franquias como "a mania que vai substituir Crepúsculo", ou "o próximo Harry Potter". A comparação, porém, é lógica no que diz respeito à estrutura. A máquina hollywoodiana sabe embalar apenas determinados tipos de produtos - daí certos filmes, que não se enquadram muito bem em gêneros conhecidos, terem dificuldade de execução e distribuição - e qualquer adaptação de grande orçamento de obra infanto-juvenil, como é o caso de Jogos Vorazes (Hunger Games, 2012), cairá nos processos conhecidos da indústria, desejosa do próximo grande sucesso de bilheteria.

A comparação é injusta, no entanto, quando analisamos  o conteúdo de obras tão distintas. De todas essas grandes franquias recentes, a primeira adaptação da trilogia literária de Suzanne Collins é a que tem conteúdo mais contestador, com inspirações em grandes obras distópicas como Admirável Mundo Novo, 1984 e, nos próximos livros, até Fahreinheit 451. Discussões sobre a autoridade, culto a celebridades, obediência, poder e controle estão em pauta na história que se passa nas ruínas futuristas da América do Norte, dividida em uma capital e 12 distritos.

Na trama, depois de uma tentativa de revolução, décadas antes, a Capital passou a exigir de cada distrito um tributo na forma de dois jovens - um garoto e uma garota - entre 12 e 18 anos, para competir no reality show de sobrevivência que dá nome ao filme. Eles devem enfrentar outros 22 concorrentes até a morte, em uma arena controlada pelo governo. O vencedor garante para seu distrito um bônus em suprimentos e regalias pelo próximo ano. A trama acompanha uma dessas jovens, Katniss Everdeen  (Jennifer Lawrence), adolescente de 16 anos que se oferece para lutar no lugar da irmã, sorteada pelo distrito.

Ainda que guarde semelhanças também com Battle Royale, filme hiperviolento japonês - mais especificamente a    batalha entre jovens até a morte -, a adaptação de Jogos    Vorazes (que, diferente do livro, abandona o foco exclusivo em Katniss e revela os bastidores do controle governamental) distancia-se de qualquer comparação recente pelos questionamentos e por não usar o espetáculo como fetiche. Afinal, não é empolgante ver o embate dos jovens na arena, mesmo que alguns deles, os mais aptos, tenham se oferecido para estar ali e desejem as glórias do combate. Os oponentes de Katniss, assim, não são os demais competidores, mas as forças por trás dos jogos. O diretor Gary Ross (Seabiscuit) opta até por um estilo de câmera e edição nas cenas de ação que se desvia elegantemente da barbárie, dando vislumbres dela, mas tirando das cenas o impacto gráfico que poderia torná-las fetichistas (e, obviamente, tornam o filme comercialmente viável em termos de classificação indicativa).

No centro de tudo, Jennifer Lawrence está à altura do desafio. Depois de excelentes atuações em filmes como X-Men Primeira Classe, Inverno da Alma e Like Crazy (infelizmente ainda inédito por aqui), a atriz traz Katniss à vida com o equilíbrio perfeito    de fragilidade e determinação. E ela está cercada por ótimos    nomes, como Stanley Tucci, Wes Bentley, Woody Harrelson, Toby Jones,    Elizabeth Banks e Donald Sutherland. A única contratação infeliz foi a do músico Lenny Kravitz, incapaz de atuar, para um dos papeis mais importantes fora do combate, o do figurinista Cinna.

Até no obrigatório romance o filme vai bem, já que o interesse dos personagens dá margem a questionamentos. Estaria Peeta Mellark (Josh Hutcherson), o companheiro de distrito de Katniss nos jogos, fingindo sua afeição ou seu interesse é verdadeiro? Estaria Katniss    sendo usada? Em tempos de lições de submissão professoradas por vampiros e lobisomens, ver uma personagem feminina forte - seja portando um arco e flecha ou suas ideias - protagonizando um filme de grande público jovem, faz pensar que nem tudo está perdido. Érico Borgo

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Crítica I  Drive  (02/03/12)

Um dos filmes mais falados de 2011 chega finalmente nesta sexta-feira (02) ao Brasil, depois de várias estreias adiadas. "Drive" encabeçou boa parte das listas de melhores do ano passado e desde a sua estreia no Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio de direção para o dinamarquês Nicolas Winding Refn, vem ganhando aura cult e uma legião de fãs, que chiaram quando o filme recebeu apenas uma indicação ao Oscar 2012 (de melhor edição de som).

Tanta agitação tem razão de ser. Estrelado por Ryan Gosling, "Drive" é, além de eletrizante, recheado de elementos que permitem uma rápida identificação com o mundo pop: uma trilha sonora oitentista puxada por sintetizadores a ala Angelo Badalamenti, e estilo, muito estilo, numa caracterização deliciosa.

Como o Estranho Sem Nome de um faroeste, apresentado apenas como "piloto", "motorista" ou "garoto", o personagem de Gosling usa luvas de couro sem dedos, palito no canto da boca, óculos escuros e uma jaqueta prateada com um escorpião nas costas – a roupa virou febre nas festas do Dia das Bruxas, em outubro. Os enquadramentos e closes parecem ter sido feitos para fazer de qualquer elemento um colecionável em potencial.

Ouça abaixo a música de abertura, com participação da brasileira Luiza Lovefoxxx:

"Drive" é uma adaptação do romance homônimo de James Sallis, publicado recentemente no Brasil. Nas mãos do roteirista iraniano Hossein Amini (indicado ao Oscar por "Asas do Amor"), o noir moderno situado em Los Angeles recebeu outras nuances, falas secas, diretas, e uma estrutura linear que o livro não tem.

Depois que a Universal Pictures, dona inicialmente dos direitos do livro, desistiu de torná-lo um veículo para Hugh Jackman, Gosling entrou em cena e, com ele, Winding Refn, conhecido pelos filmes da série "Pusher" e pelo curioso "Bronson" (2008). Os dois, ator e diretor, colaboraram no roteiro e "Drive" ganhou sua cara, uma mistura de gêneros.

A introdução do filme é exemplar. Em pouco tempo já se sabe que o Motorista tem duas frentes de trabalho: uma, oficial, como dublê em Hollywood, e outra como condutor de assaltos. Ele conhece as ruas da cidade com a palma de mão e consegue fugir sem deixar rastros, desde que a ação seja feita em no máximo cinco minutos. Mecânico veterano da indústria cinematográfica, Shannon (Bryan Cranston, de "Breaking Bad") agencia o rapaz em ambos os negócios e tem grandes planos para ele na Stock Car.

Aí surge Irina (Carey Mulligan, de "Educação"), a vizinha de ar angelical, e seu filho Benicio. Sem muito diálogo, centrada nos olhares, a química entre ela e o Motorista é instantânea. "O que você faz?", ela pergunta. "Eu dirijo ['drive', em inglês]", ele responde. A tensão dos dois é tão palpável que daria para colocar numa caixa, embrulhar e dar de presente no Dia dos Namorados.

"Drive" dá uma guinada brusca quando o marido de Irina (Oscar Isaac) sai da prisão. De repente, abrem-se as portas para um banho de sangue (o diretor tem como seu filme favorito "O Massacre da Serra Elétrica) e a ação, até então plácida, entra chutando a porta. O Motorista mostra ser perigosamente violento quando quer e, tal qual o Philip Marlowe de Raymond Chandler, implacável até com as mulheres – que o diga Christina Hendricks, presente numa ponta.

É só um exemplo de um amontoado de referências. Fica claro que Winding Refn viu e reverencia "Caçador de Morte" ("The Driver"), dirigido por Walter Hill em 1978: do visual às perseguições e a semelhança de Ryan O'Neal com Gosling, está tudo ali. Mas há ainda um quê do Shane de "Os Brutos Também Amam" (1953) e do próprio "Desejo de Matar" de Charles Bronson, quando o Motorista se converte num anjo vingador em busca de justiça.

Fazem parte dessa trama a dupla de mafiosos formada por Nino (Ron Pearlman, que mantém sua fama de mau) e Bernie Rose, interpretado pelo sumido Albert Brooks ("Um Visto para o Céu"), excelente como um ex-produtor de cinema que diversificou seus negócios.

É Bernie quem financia o empreendimento de Shannon na Stock Car e simula, de certa forma, o pêndulo no qual o filme se apóia: paternal e agradável num instante, assassino no outro, como o próprio Motorista. Um simulacro da lenda de Los Angeles, terra do sonhos que mastiga e cospe os desavisados.

"Drive" não é irretocável, em especial na construção de Irina e próximo do fim, quando o Motorista, próximo da insanidade, não tira o pé do acelerador para concluir o que se propôs. O herói sanguinário, aí, enfraquece sua empatia com o público.

Mas a conclusão mantém mais do que nunca o espírito de faroeste e acentua um clima fantástico, de conto de fadas, que flutua pela história. "Drive" choca, comove, instiga e entretém no mesmo pacote. É irresistível vibrar durante a projeção, de tensão ou de prazer. Um belíssimo filme de Gosling e Winding Refn, que vão repetir a dose, com "Only God Forgives", ambientado na frenética Tailândia – nada mais adequado para a energia da dupla. Marco Tomazzoni

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Crítica I  A Mulher de Preto  (23/02/12)

Nas histórias de terror não tem emprego pior que procurador, advogado ou escriturário. Como Jonathan Harker aprendeu em Drácula, é meio caminho para ver-se sozinho e indefeso em imóveis mal assombrados - porque mesmo os castelos da Trânsilvânia precisam estar com a papelada em dia, afinal.

Em A Mulher de Preto (The Woman in Black), Daniel Radcliffe faz o jovem advogado e pai viúvo Arthur Kipps, cujo emprego está por um fio desde que a morte de sua esposa o desestabilizou emocionalmente. Ele precisa viajar para um fim-de-mundo no interior da Inglaterra para cuidar dos papéis de um cliente recém-falecido, dono de uma mansão. A mulher de preto do título é o espírito maligno que Kipps encontra no vasto terreno, ora abandonado.

Dos longas que a Hammer Films - produtora britânica conhecida por seus    terrores góticos na metade do século 20 - realizou desde que voltou sob nova direção em 2008, como Deixe-me Entrar e A Inquilina, A Mulher de Preto é o que mais se aproxima da estética e dos temas consagrados da Hammer. Talvez venha daí a impressão de que seja um filme à moda antiga, preocupado não só com a direção de arte sinistra e com sustos de vultos, mas principalmente com a atmosfera.

Há poucos lugares mais propícios a um terror gótico do que o interior e o litoral da Inglaterra. Cotterstock Hall, a casa onde o filme se passa, que fica em Oundle, Northamptonshire, foi construída em 1658 e não parece ter mudado muito ao longo desses séculos - e o mesmo vale para os arredores. A Mulher de Preto se passa na era eduardiana, nos anos 1900, mas a produção deve ter mexido pouco na paisagem para recriar esse cenário de época.

Outra constante desse tipo de filme é o choque de comportamento; o protagonista quase sempre é da cidade grande - no caso de Arthur Kipps, Londres - e, por extensão, olha com ceticismo para as crendices místicas da "gente do campo". Não é difícil antever que A Mulher de Preto seguirá o receituário clássico, com Arthur Kipps tendo a lógica como única arma contra o inexplicável.

O diretor James Watkins faz um trabalho decente ao contextualizar A Mulher de Preto dentro dessa linhagem do terror, que tem na melancolia dos personagens o seu traço mais marcante. Os terrores góticos em geral, e os da Hammer em particular, não encaram o sobrenatural com surpresa, mas com resignação - como se questionar o destino, por pior que ele seja, fosse tão absurdo quanto questionar os direitos da realeza.

No fundo, embora exista esse aparente comodismo, é o rancor contra a    aristocracia que move o subgênero. Não por acaso a Hammer prosperou com o terror gótico na Inglaterra pobre do pós-guerra, e não por acaso os "heróis" do gênero são esses eficientes burocratas que questionam posse e propriedade. É como se uma maldição à altura de sua ostentação fosse o castigo merecido dos    ricos.

A maior qualidade de A Mulher de Preto - um filme de direção meio frouxa, com um Daniel Radcliffe esforçado - é perceber e retransmitir essa melancolia e esse rancor que surgem com a estagnação social. Marcelo Hessel

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Vidas Cruzadas  (03/02/12)

Histórias Cruzadas (The Help) mostra o drama das empregadas negras nos Estados Unidos durante a conturbada luta pelos direitos civis em meados do século passado. No entanto, o faz trilhando um caminho dos mais intimistas, priorizando as questões pessoais das personagens em detrimento de eventos históricos e políticos que poderiam tornar mais épico - e menos próximo - o tom do filme (ou talvez essas duas abordagens sejam, essencialmente, a mesma coisa, como  defenderam as feministas à época, com seu lema "Le personnel est politique").

Assim, é de forma extremamente íntima - como na necessidade de um banheiro separado para as empregadas ou no carinho que essas ajudantes sentiam pelas crianças brancas que criavam -, que somos apresentados ao atrasado estado do Mississipi em 1962. Skeeter, personagem vivida por Emma Stone, é a única de suas amigas de colégio  disposta a ver aquelas mulheres negras de forma igualitária. Seu sonho  é ser escritora e ela encontra seu primeiro emprego na coluna de conselhos domésticos do jornal local, assunto sobre o qual nada sabe, aproximando-se assim de Abileen (Viola Davis).

Não demora para que ela tenha a ideia de revelar ao mundo como aquelas mulheres se sentem. Mas o único obstáculo para tanto são as próprias    empregadas e seu medo de punição caso alguém descubra.    Afinal, é na base da ameaça que os segredos das chefes brancas    são mantidos. E quão detestáveis são as chefes!  Bryce Dallas Howard consegue transmitir tanta maldade (inicialmente velada) com sua Hilly Holbrook que é inevitável se pegar na plateia torcendo contra ela.

Os momentos mais sofridos do filme são de Viola Davis, cujos depoimentos são contados em tom calmo e sofrido. Já Minny  (Octavia Spencer) dá os toques cômicos que às vezes são quase exagerados, mas não falham em arrancar risadas da plateia. Este é um filme de mulheres e cada atriz soube entregar seu papel muito bem, com a dose certa de dramaticidade e humor (o espaço para os homens é tão limitado quanto a parede de Abileen: só Jesus Cristo e John F. Kennedy merecem destaque ao lado da foto do filho). O equilíbrio é tamanho que Histórias Cruzadas acerta em cheio em seu objetivo de entregar um feel good movie perfeito, fazendo chorar mas sem deprimir, relembrando um passado sombrio, mas sem levar a qualquer reflexão mais profunda.

O diretor e roteirista Tate Taylor soube extrair o melhor de seu elenco e também do best-seller de Kathryn Stockett. A trama se desenrola sem tropeços, prende e diverte. Muitos se surpreenderam quando The Help chegou ao primeiro lugar nas bilheterias dos EUA e lá ficou por três semanas seguidas (o que não acontecia desde A Origem), superando os blockbusters milionários do momento. No entanto, a verdadeira surpresa é que ainda exista o choque dos executivos quando um ótimo filme, com boas atrizes e orçamento adequado para seu roteiro e sem excessos megalomaníacos, encontre seu público com honestidade. Carina Toledo

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Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres  (27/01/12)

Se você assistiu ao original sueco ou leu a trilogia do escritor Stieg Larsson, pode achar maçante Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, com seus 158 minutos dedicados à investigação de um crime cujo culpado você já conhece. A refilmagem de David Fincher vale a pena, porém, por resgatar vários elementos do livro que o filme sueco, bastante inferior ao remake, optou por substituir.

Agora, questões. Fincher escolheu fazer de The Girl with the Dragon    Tattoo o primeiro remake de sua carreira apenas para corrigir as más    escolhas do outro filme? Seria uma forma de sinalizar à indústria que ele pode realizar filmes de encomenda com a mesma dedicação de seus projetos pessoais? (Assim como Millennium, os vindouros Cleopatra e 20.000 Léguas Submarinas também são projetos-de-produtor e seriam já os frutos a colher dessa disposição.) Ou há no material elementos que sempre interessaram ao cineasta? Embora Fincher não    goste que apontem repetições de temas entre seus filmes, essa última opção parece digna de discussão.

Rooney Mara, a Lisbeth Salander de Fincher, é a mesma atriz que viveu a namorada de Mark Zuckerberg em A Rede Social, filme que reacendeu a acusação de misoginia que sempre recaiu sobre o diretor. Não parece coincidência que Fincher tenha escolhido fazer, em seguida, um filme justamente sobre misóginos, como este Millennium. Se a relação não é intencional, certamente há uma constante: Lisbeth é uma heroína tipicamente fincheriana, brutalizada por uma sociedade de homens como era, também, a Ripley de Alien 3 ou, em menor grau, a Jodie Foster de Quarto do Pânico.

Aquela Sigourney Weaver do primeiro longa do cineasta, aliás, com sua cabeça raspada, já passava uma imagem masculinizada que agora se repete com Mara, como se a única maneira de combater os homens fosse emulá-los - e então substituí-los. Até encontrar Mikael (Daniel Craig), Lisbeth caminhava para a substituição    do homem (a vingança fálica contra o burocrata, o encontro com    outra garota na balada). Lisbeth se apega a Mikael porque encontra nele algo    que ela valoriza em si: uma morbidez, um orgulho de ser marginalizado, autosuficiente. São valores que Fincher, pelos seus filmes (a morbidez é declarada), também parece cultivar.

É muito boa a cena em que Mara começa a narrar, diante de fotos no computador, as maneiras como as vítimas foram mortas; Mikael pede-a que pare, apesar da visível empolgação de Lisbeth. É a mesma morbidez que, em outro momento, fará a hacker aceitar o jornalista como parceiro sexual digno: logo depois que ela sutura a ferida do tiro que ele tomou de raspão. O respeito à dor é caro para Lisbeth (a tatuagem feita em cima da ferida fresca no tornozelo), como já era    para as demais heroínas masculinizadas de Fincher.

Em Millennium os poucos homens que não odeiam as mulheres são potenciais alcoólatras. Nunca bebeu-se tanto no cinema. A exceção é Mikael - que olha discretamente com reprovação quando Martin (Stellan Skarsgård) vira o jarro de vinho dentro da taça do jornalista, em outra boa cena. Mikael cai nas graças de Lisbeth também porque tem, ao contrário dos demais suecos, alcoólatras ou não, um certo domínio tecnológico - a manipulação das fotos feita por Mikael é passo crucial na resolução do crime.

Assim como a morbidez e a autosuficiência, o apreço pela tecnologia - e automaticamente o desprezo diante do que é institucional e "velho"  - também é um traço do cinema de Fincher (particularmente em Clube da Luta). Embora o seu Millennium patine um pouco ao reiterar o choque do velho com o moderno - como o momento em que Lisbeth está entre um trem veloz e uma velha ponte de madeira, cena que não adiciona nada à investigação ou à trama em si - vale    assistir ao remake só para acompanhar como a hacker desdenha de tudo que    é "analógico", nem que seja só recusar-se a ajudar uma senhora a descer arquivos de papel de uma estante.

No fim das contas, Fincher adota Lisbeth porque é uma heroína bem ao seu gosto, castigada e petulante. Mas isso é misoginia? O remake não se encerra no mesmo tom irônico do outro filme (Lisbeth fingindo-se de loira, de "mulher normal"), e sim numa cena da hacker fragilizada por uma expectativa não correspondida. Termina como uma figura trágica, como já era antes, mas também inesperadamente emocional - e Lisbeth, enquanto personagem, tende a ganhar com isso. Marcelo Hessel

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Crítica  I Cavalo de Guerra  (06/01/12)

Houve uma época em que muita gente desdenhava de Steven Spielberg. Se o diretor norte-americano era praticamente imbatível quando se falava de aventura (ah, "Indiana Jones"), suas investidas pelo drama eram vítimas de um preconceito difícil de entender – mesmo "A Cor Púrpura" e "E.T.", lá na década de 1980, mostravam um talento evidente.

Após 40 anos de uma carreira com mais acertos do que erros, olhar atravessado para Spielberg hoje seria um absurdo: afinal de contas, ele domina a gramática do cinema hollywoodiano como ninguém e sabe como atingir em cheio o espectador.

"Cavalo de Guerra", que chega nesta sexta-feira (06) aos cinemas brasileiros, é uma boa prova desse domínio. O filme concorre em duas categorias do Globo de Ouro e tem presença quase certa entre os indicados ao Oscar 2012 (a lista dos finalistas será divulgada no próximo dia 25). Spielberg assistiu à bem-sucedida montagem teatral londrina de "Cavalo de Guerra", baseada no livro infantil de Michael Morpurgo, um best-seller, e chorou um bocado. O diretor viu ali a chance de fazer o mesmo com plateias inteiras.

Realmente, chances para levar o público às lágrimas não faltam. Além de situada na Primeira Guerra Mundial, que por si já aviva olhos marejados, a história tem material de sobra para trazer emoções à flor de pele, em especial por se apoiar num sentimento de inocência arrebatadora: o amor de um garoto por seu cavalo.

No interior da Inglaterra, em 1914, a família do jovem Albert (Jeremy Irvine), ancorada por sua mãe (Emily Watson, majestosa), batalha para conseguir sobreviver plantando em terras arrendadas.

O patriarca, Ted Narracott (Peter Mullan), soldado veterano e alcoólatra, num arroubo da bebida arremata um potro puro-sangue num leilão, quando precisava na verdade de um animal robusto para puxar o arado. E aí começa a magia de "Cavalo de Guerra": Joey, o cavalo, é especial. Espere, portanto, muitas demonstrações de coragem, carinho, força e inteligência.

Por se tratar de uma história escrita originalmente para crianças, há um tom inegável de conto de fadas. Doce, de voz suave e ar angelical, Albert corre alegre pelas verdejantes colinas inglesas ao som de uma retumbante trilha orquestral – impossível não lembrar de "A Noviça Rebelde".

Assim como no filme estrelado por Julie Andrews, a candura é posta em suspenso pelos horrores da guerra: sem dinheiro para pagar o aluguel ao dono das terras (o excelente David Thewlis), o velho Narracott se vê obrigado a vender Joey ao exército britânico, para desespero de Albert.

Spielberg tem experiência de sobra na Segunda Guerra Mundial – fez "O Resgate do Soldado Ryan", "A Lista de Schindler" e inúmeros projetos como produtor, da série "Band of Brothers" a "Cartas de Iwo Jima".

O primeiro embate contra os alemães surgiu como uma oportunidade para o diretor explorar um mundo em plena mudança, rumo à mecanização. Foi a última guerra em que cavalos tiveram um papel fundamental, embora a indústria armamentista estivesse a pleno vapor. Nesse sentido, uma cena é exemplar: num ataque surpresa, a cavalaria britânica, elegante, galopa com espadas em riste rumo a um acampamento germânico, apenas para ser surpreendida por um paredão de metralhadoras.

As imagens, claro, são fortes, mas nunca brutais. Spielberg comanda com desenvoltura o avanço de tropas pelas trincheiras, corpos voando pelos ares ou caindo alvejados, sem nunca mostrar sangue – afinal de contas, trata-se de uma produção da Disney. É uma forma de abordar a guerra e mostrá-la sem ser um "filme de guerra" propriamente dito. Aqui, o que importa é falar de amor, coragem, tragédia, moral, obstáculos e redenção.

Com closes frequentes em seus olhos expressivos, o cavalo (ou melhor, 14, o total de animais usados nas filmagens para interpretá-lo) serve como ponto de apoio para tudo isso. Joey passa por lugares e exércitos diferentes, sempre comovendo quem convive com ele – a não ser, obviamente, os personagens que fazem as vezes de vilão. Piegas? Sem dúvida.

Spielberg acerta ao conseguir, no entanto, caminhar no limite, sem resvalar para o mau gosto. É o sentimentalismo friamente calculado, infalível.

Não é difícil imaginar a satisfação do cineasta atrás do monitor, pedindo o zoom na lágrima dolorida de uma menina francesa, ou na mesa de edição, mexendo os botões para aumentar a trilha sonora melosa nos momentos-chave. Se eventualmente ele se alonga demais, perde de vez o pé na realidade ou exagera no açúcar, também é capaz de criar cenas espetaculares, de cortar o coração. Sair do cinema incólume é tarefa das mais complicadas.

Mesmo sem a ter a propriedade de Martin Scorsese, Steven Spielberg ainda fez em "Cavalo de Guerra" sua homenagem ao cinema dourado de Hollywood. De clássicos da Primeira Guerra ("Nada de Novo no Front") a obras-primas de John Ford (a cena final é puro "Rastros de Ódio"), o diretor não economizou nas referências.

Não espanta, portanto, que cada fotograma de "Cavalo de Guerra" tenha praticamente um carimbo escrito "Oscar". O filme não deve ganhar os principais prêmios, mas com certeza ficará na linha de frente. Com mérito.

Marco Tomazzoni

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Crítica  I  Imortais  (30/12/11)

Apenas dois filmes irão estrear nesta sexta-feira (30) dentro do circuito comercial, na antevéspera do réveillon. Nada mais natural, já que o movimento nos cinemas costuma diminuir nesta época do ano. Assim, o destaque da semana fica a cargo do longa-metragem "Imortais", dirigido por Tarsem Singh, também responsável por "Espelho, Espelho Meu", inspirado na fábula da Branca de Neve, com Julia Roberts no papel da Rainha e que deverá estrear em 2012. "Imortais" é produzido pela dupla Mark Canton e Gianni Nunnari, que também trabalhou no longa "300", com Rodrigo Santoro (2007).

O filme segue a linha de "300", com personagens fortões e várias cenas sangrentas de batalhas. Também lembra "Fúria de Titãs" ao misturar deuses gregos e bestas mitológicas. O problema é que o roteiro não está minimamente preocupado em ser verossímil com a mitologia. O resultado é um apanhado de histórias e personagens que nunca tiveram nenhuma relação, mas que, na produção, parecem ser íntimos. Um desserviço àqueles que querem conhecer mais sobre a mitologia grega.

Na história, o Rei Hipérion (Mickey Rourke) declara guerra contra os gregos e planeja libertar os Titãs que estão presos no Monte Tártaro. Para isso, ele busca o arco de Epirus, forjado no Olimpo pelo deus da guerra, Ares. Para impedi-lo de achar o arco, Teseu, um plebeu, lidera um exército de rebeldes, além de contar com a ajuda de deuses do Olimpo, como Zeus e Atenas.

O problema é que, na mitologia grega verdadeira, Teseu nunca foi plebeu e se tornou rei depois de matar o Minotauro no labirinto. Até há a cena da morte do Minotauro no filme, mas não é tão importante assim e, depois dela, Teseu não vira rei. Henry Cavill (o novo Super-Homem) vive o papel de Teseu e Freida Pinto é a mocinha Faedra, um oráculo que é perseguido pelo rei Hipérion. Já a australiana Isabel Lucas encarna a deusa Atenas.

Apesar de já terem desempenhado bons papéis em outros filmes, a atuação dos atores se resume a poses e gritos de raiva contra o mundo. Até seria possível considerar o filme uma boa diversão, mesmo com os desvios das histórias originais, mas uma coisa é inconcebível: deuses como Zeus, Atenas e Poseidon são mostrados como fracos e passíveis de erros e, pasmem, mortais. Como deuses podem ser mortais?

Essa é uma pergunta que a trama não responde. Um deus mortal é algo inaceitável até mesmo para um filme como esse. O que não deixa de ser irônico, já que o título do filme é "Imortais". Tanta mudança nas figuras mitológicas faz lembrar o filme "Percy Jackson e o Ladrão de Raios" (2010), que altera, sem qualquer critério, feitos históricos.

Os efeitos especiais, em compensação, são bem-feitos. A vila onde vive Teseu, nas encostas do mar Egeu, é linda. Os cenários das batalhas, como o forte onde os gregos se abrigam para lutar contra o Rei Hipérion, também impressionam. Essa majestosa construção parece com o forte do Abismo de Helm, do filme "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" (2002).

O espectador que for assistir a Imortais esperando encontrar um filme semelhante a "300" deve sair decepcionado. O máximo que verá será um punhado de efeitos especiais em uma história sem pé nem cabeça.  Agência Estado

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Missão: Impossível 4 - Protocolo Fantasma  (23/12/11)

Ainda não fizeram um filme da franquia Missão: Impossível que deixe o espectador sair da sala desapontado. Pode ser que depois, olhando para trás, você veja que algum filme (*cof* M:I-II *cof*) não era tão legal assim, mas na série o importante é cumprir a missão daquele instante e sair de cabeça erguida. E Brad Bird, diretor que vem de um premiado passado fazendo animações (Gigante de Ferro, Os Incríveis, Ratatouille), cumpre muito bem a sua. Ele traz para a franquia estrelada e produzida por Tom Cruise pitadas de humor intencional que não estavam presentes antes. E o faz sem exagerar, apenas dando espaço para o público poder baixar  a guarda por alguns milissegundos, enquanto prepara a próxima sequência de ação, que será ainda mais impressionante que a anterior.

A complexidade toda da história e de cada ação do grupo liderado por Ethan Hunt (Cruise) e formado por Benji (Simon Pegg reprisando o papel de M:I-III) e os novatos Jane (Pauta Patton) e Brandt (Jeremy Renner) é explicada em detalhes na tela, não deixando muitas dúvidas de que eles sabem o que estão fazendo e que, quando o plano dá errado, também estão preparados para se virar, improvisando com o que têm nas mãos. Assim, eles se cercam também da certeza de que qualquer um que esteja entrando agora na sala de cinema vai entender o filme e também a franquia, mesmo se não tiver visto os capítulos anteriores.

Uma das diferenças de M:I-IV para os anteriores é a de que desta vez o grupo não é escolhido por Hunt. Depois de ser resgatado de uma prisão russa, ele já engata  uma missão: roubar códigos secretos de dentro do Kremlin e, assim, impedir que um terrorista coloque suas mãos no arsenal nuclear da antiga União Soviética. O plano, porém, sai errado, e a agência secreta em que trabalham, a IMF (Impossible Missions Force), é apontada como a culpada por uma enorme explosão em Moscou. O governo dos Estados Unidos não vê outra alternativa que não seja a desativação imediata da operação, colocando seus agentes na lista de procurados. Agora cabe a Hunt e aqueles que sobraram ao seu lado procurar quem armou para cima deles e ainda impedir uma catástrofe que pode terminar na guerra nuclear de que escapamos durante a Guerra Fria.

Antes de Moscou, o filme já passou por Budapeste e vai ainda para Dubai antes de ter o seu clímax em Bombaim e desfecho nos Estados Unidos. Este espírito global tão latente não chega a ser novidade na franquia, mas é exacerbado aqui e só faz bem ao filme. Cada uma das cidades tem sua grande sequência, sendo que a mais alardeada delas, no alto dos 828 metros do Burj Khalifa, é de causar vertigem a trapezista. Melhor ainda se for vista nas telas gigantes do IMAX - e aqui vale o comentário: se você puder ver o filme em IMAX, veja! Seguindo os passos de Christopher Nolan, Bird filmou várias sequências usando as câmeras de 70mm do sistema, que dão uma clareza de qualidade espantosa e criam uma imersão muito maior do que o 3-D.

Dito isso, sim, o longa é repleto de momentos "ah vá!", mas este é o seu beabá. É isso que o tornou tão empolgante, assim como as gadgets e as mensagens que se destróem depois de 5 segundos. Algumas delas, já meio enferrujadas, diga-se de passagem. De luvas que grudam em vidro a projetores 3D portáteis e lentes de contato scanner, tudo é usado para divertir o público, ora com vislumbres do futuro, ora como mera piada.

Entre perseguições em tempestades de areia, carros despedaçados e traições, Bird e os roteiristas André Nemec e Josh Appelbaum não se apressam em formar pares românticos dentro da equipe, escapando de um dos maiores clichês do gênero. Se você se lembra do  terceiro filme, Cruise estava apaixonado por Julia (Michelle Monaghan) e não escondia isso de ninguém. Agora, as consequências desse amor chegam novamente para lhe cobrar os juros. Seria muito mais fácil colocá-lo junto com a bela Jane, mas não é assim que se constrói personagens e Bird sabe como ninguém apresentar arcos dramáticos e desenvolvê-los, deixando até ratos e Tom Cruises mais humanos... Marcelo Forlani

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"Roubo nas Alturas" explora com humor a crise financeira  (16/12/11)

"Roubo nas Alturas", de Brett Ratner, não é uma comédia rasgada como faz supor a presença de Ben Stilller e Eddie Murphy, que interpretam ladrões que revivem o espírito de Robin Hood, roubando de um rico para redistribuir aos explorados. Com humor mais contido, o diretor prefere explorar a cuidadosa engenharia desenvolvida pela dupla para a aplicação do golpe, arrancando alguns sorrisos com as confusões que ameaçam a cada momento colocar tudo a perder.

Stiller é Josh Kovacs, gerente de um condomínio de luxo em Nova York, administrado com rigor militar para não importunar os moradores. Para zelar por clientela tão endinheirada e exigente, eles têm que trabalhar exaustivamente com a precisão de um relógio e, ao mesmo tempo, ser invisíveis. Não podem nem mesmo ter telefone celular.

Um dos moradores mais importantes é o megainvestidor Arthur Shaw (Alan Alda), com quem Josh disputa partidas de xadrez pelo computador. O equilíbrio no edifício Tower Heist é rompido com a surpreendente prisão do investidor por agentes do FBI. Seus negócios entraram em colapso e as autoridades acusam-no de fraude. Ele perdeu toda a fortuna da noite para o dia.

O que seria apenas um problema pessoal do empresário ganha uma dimensão maior quando Josh descobre que quase todos os funcionários, que confiavam no faro do investidor, entregaram-lhe suas economias para serem aplicadas no mercado financeiro. Todos perderam a poupança de uma vida.

A revanche de Josh começa a ser levada seriamente em consideração quando ele descobre pela policial que chefia a equipe do FBI (Tea Leoni) que Shaw pode ter escondido 20 milhões de dólares antes de ter praticado a fraude. É o bastante para que o gerente desconfie que o dinheiro esteja numa parede falsa do apartamento do investidor, que havia sido reformado pouco antes.

Josh convence outros funcionários a aderirem ao plano e monta um exército Brancaleone de ladrões totalmente inexperientes, mas que supostamente possuem alguma habilidade pessoal que poderá ser útil na hora H. A grande ajuda pode vir de um "especialista", o ladrão pé-de-chinelo Slide (Eddie Murphy), que repete as caretas que já exibiu em outras comédias, mas, mesmo assim, dá ao filme uma veia cômica mais dinâmica.

Ben Stilller e Eddie Murphy são os personagens principais da comédia "Roubo nas Alturas"

"Roubo nas Alturas" estreou em novembro nos Estados Unidos, no auge do movimento Ocupe Wall Street, de protesto contra a crise econômica do país. A revolta pelo alto preço pago pela população por causa dos desmandos do setor financeiro tem no personagem de Alan Alda a personificação do mal que todos identificam. Por isso, a figura de um bom ladrão, nos moldes de Robin Hood, é festejada com tanto entusiasmo entre os funcionários do edifício Tower Heist. Reuters                   

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Crítica  I A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1  (18/11/11)

Gosto de pensar que eu estava me guardando para este quarto Crepúsculo,    para Amanhecer, com todas as suas promessas de nonsense, como se o útero arrebentado de Bella Swan fosse abrir para mim as portas desse maravilhoso fenômeno fílmico-literário, mas o fato é que eu não vi os filmes anteriores da saga por mero desinteresse.

Sempre houve curiosidade mórbida, claro, mas não era mais forte que a certeza de já ter adivinhado, mesmo sem ver os filmes, todas as obviedades da metáfora central da série, o vampirismo como alegoria da perda da virgindade. Pois eis que assisto a Amanhecer, e as constatações imediatas são duas:

1) Quando reconheço a autora da série, Stephenie Meyer, fazendo uma ponta no início do filme como convidada do casamento de      Bella e Edward (o produtor Wyck Godfrey interpreta o padre),      percebo que conheço Crepúsculo até demais. Não se menospreza o poder de osmose de um produto que ocupa 50% do total de salas      de cinema do seu país;

2) O romantismo neoconservador da escritora é muito mais obsessivo do que eu poderia supor. Agora dá pra entender por que o Brasil tem a maior base de fãs da série fora dos EUA, num momento em que o país mais católico do mundo demonstra a extensão do      seu reacionarismo... Mas voltemos ao assunto.

Não deixa de ser melancolicamente irônico que o diretor de Amanhecer seja o mesmo de Kinsey.  Em seu melhor filme, Bill Condon retornava aos castiços    anos 1940 para desmistificar a nossa sexualidade, na figura do "Doutor Sexo" Alfred Kinsey, e nessa comparação Amanhecer  representa o absoluto retrocesso. Não é fácil ser mulher - pra saber disso não é preciso ser uma - mas ser uma mulher escrita por Stephenie Meyer é muito pior.

Principalmente porque Amanhecer, embora aparente resgatar figuras    de uma certa tradição moral e religiosa (o homem forte e provedor,    a mulher frágil mas fértil), na verdade está restabelecendo    só os tabus associados a essas figuras.

Primeiro há a figura opressiva do macho. Edward não é "virgem" - oportunamente, o filme começa contando-nos que nos anos 1930 ele caçava mortais para se alimentar -, o que já estabelece entre ele e Bella uma hierarquia que não é somente a do imortal diante da mortal, mas também do homem experiente diante da menina casta de 18 anos. É óbvio que Bella transará, é por isso    que ela e todos nós esperamos, mas Meyer e Condon trabalham essa expectativa    de forma doentia. Daria pra fazer um ensaio só sobre a fixação por toras; um vampiro carrega uma tora, a casa de madeira na floresta é cercada por árvores grossas, a discussão dos lobos acontece no meio de um monte de toras...

Sendo uma mulher que cresceu na América profunda, é compreensível    que as projeções fálicas de Stephenie Meyer envolvam muita lenha, muita rusticidade, mas não tem desserviço maior para as adolescentes do século 21 do que associar o sexo à imagem violenta da madeira ("wood", em inglês, é também uma gíria para ereção). Diante disso, os outros símbolos canhestros de masculinidade em Amanhecer (os vampiros assistem a futebol americano; os lobisomens, como são "exóticos", jogam soccer) são inofensiva piada.

Pela lógica, um macho só é macho ante mulheres fracas. As de Amanhecer são fracas não só por dependência    (Bella é filha de uma figura de autoridade, um policial, então o vampiro no fundo é só uma autoridade que substitui essa anterior) como também fracas de espírito: elas dividem-se entre as servis (a vampira melhor amiga), as loucas (a vampira que não se controla) e    as rejeitadas (a índia, a amiga do colégio). Bella não se encaixa em nenhum desses três perfis porque tem a "honra" de ser A Escolhida. A ela é reservado o privilégio maior do mundo de Stephenie Meyer: o sacrifício de ser mãe.

O sobrenome de Bella é Swan, "cisne", não por acaso. Os cisnes-brancos são monógamos por natureza, e na sua versão poética, eternizada nos balés, passam a vida emudecidos - até que cantam uma bela e triste canção antes de morrer. Não é preciso forçar na analogia para ver em Amanhecer um grande canto do cisne, em que a virginal Swan abre mão da própria vida no momento em que o mágico suco do vampiro a faz cantar. Outro tabu proscrito que o filme reabilita: a fertilização como fim da vida.

Amanhecer é um filme nocivo porque todas essas atribuições sociais obviamente datadas são tratadas como se fizessem, desde sempre,    parte das leis da natureza. O próprio sobrenatural é reformatado    para se enquadrar no mundo natural, científico - e a "sequência    CSI" pelo interior do corpo de Bella é um exemplo disso. Deve ter gente que    pira com essa espécie de teoria do Design Inteligente contada em forma    de conto de fadas, mas eu não tive, francamente, muita paciência    de pesquisar todos esses elementos dentro da mitologia da série. Como diabos um vampiro gera veneno, afinal?

Aliás, a título de curiosidade, acredito que seja importante    dizer que a cena do parto não tem nada de especial: são efeitos    de câmera demais e sangue de menos. A de Ligeiramente Grávidos é muito mais chocante. Ainda na linha confessional, gosto também de pensar que a transmutação a que Kristen    Stewart é submetida neste filme tem muito de David Cronenberg - no sentido em que a deformação física espelha a deformação    da identidade - mas se vou ofender algumas twilizetes (é assim que chama?) não preciso também xingar os fãs do canadense.

Só pra completar, uma ironia (já que Bill Condon nos brindou    com aquela ironia do começo): o mais próximo de uma "mulher    forte" que Amanhecer tem a oferecer é a lésbica    Barbara Gruska, que canta na dupla Belle Brigade a canção que encerra o filme - o velho truque de colocar uma música    animadinha durante os créditos finais, pra tudo mundo sair achando o filme o máximo.

Falando em final, Amanhecer tem um único mérito, que    é o de contar uma história com um começo, um meio e um    fim satisfatórios (muito mais do que qualquer Harry Potter, todos cheios de começos mal explicados e finais interrompidos). Não senti a necessidade de ver os filmes anteriores e sei que a guerra final com os Volturi é a maior enrolação. Em relação    ao arco de Bella, a Parte 2 de Amanhecer é absolutamente dispensável, agora que ela já foi devidamente deflorada em nome dos dogmas e dos interesses de quem quer que seja.

Assim, encerro aqui este texto. Tive a minha primeira experiência com Crepúsculo e acredito que tenha sido também a última. Marcelo Hessel
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Crítica  I Gigantes de Aço  (21/10/11)

Sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, desbancando promessas como a refilmagem de "Footloose", a aventura "Gigantes de Aço" pode parecer simples, mas tem DNA poderoso. Produzido por Steven Spielberg, estrelado por Hugh Jackman e dirigido por Shawn Levy, o filme é baseado em um conto ("Steel," de 1954) de Richard Matheson, celebrado autor de livros e roteiros de fantasia, terror e ficção científica.

O escritor é conhecido por colocar pessoas comuns em situações excêntricas.
Ele contribuiu para a série "Além da Imaginação" e escreveu "Eu Sou a Lenda", base dos filmes "Mortos que Matam" (1964, com Vincent Price), "A Última Esperança da Terra" (1971, com Charlton Heston) e, finalmente, "Eu Sou a Lenda" (2007, com Will Smith). Foi de Matheson também a ideia do primeiro filme de Spielberg, "Encurralado" (1971).

Em "Gigantes de Aço", no entanto, a genética dos criadores mudou os rumos do filme. Em um futuro próximo, 2020, os esportes de luta foram banidos pela intensa violência que apresentavam. Isso porque as pessoas ficaram tão afoitas para ver sangue nos ringues que, no fim, precisaram substituir os lutadores por robôs. É nesse contexto que habita Charlie Kenton (Hugh Jackman), um ex-boxeador azarado, às voltadas com máquinas de briga sucateadas para conseguir sobreviver.

Seria uma situação chocante sob diversos pontos de vista, mas o insólito desenvolvimento desse relacionamento é bem trabalhado por um roteiro que aposta no humor ácido, pelo menos a princípio, para integrar os personagens. Chega a ser assustadora a naturalidade com que o jovem ator Dakota Goyo diz "se me vendeu, pelo menos mereço a metade do pagamento" - que depois se transforma em piada.

Em outra cena que demonstra o desleixo do pai com o filho, Max cai de um penhasco dentro de um ferro velho e é salvo por um robô, que estava por ali semienterrado. O rapaz se apega a seu salvador, que recebe o nome de Atom, e força o pai a colocá-lo em lutas, mostrando que um campeão pode vir de qualquer lugar, até mesmo do entulho. Atom passa a ser a força motriz para a relação familiar dar certo.

John Gatins, Dan Gilroy e Jeremy Leven, que assinam a adaptação da história e o roteiro, mantêm a complexidade moral de pessoas comuns em situações bizarras (um dos temas de Matheson). No entanto, introduzem novos elementos, como a relação entre o garoto e o pai (tão cara a Spielberg) e um humor condescendente, do qual o diretor canadense Shawn Levy (de "Uma Noite Fora de Série") também gosta.

Destaque também para as referências à franquia "Rocky - Um Lutador", em especial à última luta, quando o campeão Zeus (pai de Apollo) é desafiado por Atom. Aliás, as lutas são outro ponto forte do filme, cujos movimentos foram capturados pela produção a partir de lutadores reais, supervisionados pelo astro do boxe Sugar Ray Leonard.

Em seus devaneios futurísticos (muito embora o futuro dele fosse a década de 1970), Matheson mostra um mundo cada vez mais desumanizado. "Gigantes de Aço", no entanto, tem como mensagem o oposto. Piadista, Levy disse que seu filme se passa em 2020 porque não queria uma ficção científica extrema. Em entrevista, chegou a dizer: "Queria o mundo mais familiar (para os espectadores). Um aparelho de celular pode mudar em 10 anos, mas o jantar vai continuar parecendo um jantar." Reuters

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Crítica  I  A Hora do Espanto  (07/10/11)

A maior defesa a ser feita a respeito de A Hora do Espanto (Fright Night, 2011) é que o filme é tão superficial quanto o clássico oitentista homônimo em que foi baseado. O roteiro vazio, em que situações com potencial de desdobramento interessante em metáforas para a adolescência e responsabilidade, perde-se nas cenas de ação do arrastado terceiro ato.

Soluções mais elaboradas, porém, neste caso parecem curiosamente desnecessárias, tamanha a diversão que esse terror, que revisita tempos mais simples, oferece.  Se não apresenta nada de inteligente, ao menos a produção não ofende ou busca ser algo mais do que efetivamente conseguiria ser. Menos sexualizado que o original (é um filme da Disney, afinal), o longa tem um tom interessante, de comédia de horror, que era tão comum há 20 anos e parece esquecido hoje. É simplesmente divertido assisti-lo e esses dois aspectos, os sustos e as piadas, são bem equilibrados.

O diretor Craig Gillespie, que despontou com o ótimo A Garota Ideal,  faz um bom trabalho com o seu elenco. Colin Farell parece divertir-se na pele do vampiro Jerry, o vizinho misterioso que se muda para a casa ao lado de Charley Brewster (Anton Yelchin, de Star Trek), um "ex-nerd" que, alertado por um amigo antigo (Christopher Mintz-Plasse), começa a desconfiar do sujeito bonitão que está eternamente reformando a casa. Toni Collette (que trabalhou com Gillespie em United States of Tara), vive a mãe que não acredita no filho -  que é forçado a procurar a ajuda de um mágico ocultista de Las Vegas,  Peter Vincent   (o escocês David Tennant, de  Dr. Who), para livrar-se da praga.

É um tremendo alívio ver vampiros serem tratados como se deve: queimando no    sol, morrendo com estacas no peito, não aparecendo em reflexos, temendo cruzes    e sendo sedutores - o pacote clássico completo. Sem as invencionices de Crepúsculo,    que, aliás, é satirizado com uma ótima piada. Em tempos em que os predadores    definitivos da mitologia viraram românticos emos, A Hora do Espanto resgata valores sanguessugas que merecem ser lembrados. "Ele é o tubarão    em Tubarão", explica o personagem de Mintz-Plasse (que parece    saído de Os Garotos Perdidos, outro clássico de uma era diferente).    Se A Hora do Espanto apresenta alguma modificação relevante ao mito dos vampiros, é o apreço de Jerry por uma boa cerveja...

Fica a ressalva, no entanto, ao 3-D - um dos piores (talvez o pior) do cinema    recente. Definitivamente não pague a mais por ele. Fora uma cena em que fagulhas dançam na tela com um efeito bastante agradável e alguns segundos do clímax  contra o vampiro, a escuridão e os tons dessaturados do filme simplesmente arruinam a tridimensionalidade. Em muitos momentos é até difícil discernir o que está acontecendo. Prefira mesmo o 2D e não entregue sua jugular à sede do estúdio por uns trocados a mais. Érico Borgo

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Ator confirma Drake e Snake em jogo de luta de Playstation

Após confirmar que seu personagem, Cole MacGrath, estará entre os selecionáveis de PlayStation All Stars Battle Royale, o ator Eric Ladin vazou, em sua conta do Twitter, outras duas opções que devem estar no jogo de luta da Sony: Nathan Drake, de Uncharted, e Snake, de Metal Gear.

Criador de 'Journey' está trabalhando em game para adultos

O desenvolvedor de Journey, Jenova Chen, afirmou que está trabalhando em um game para atrair o público adulto. Segundo o executivo da That Game Company, os atuais jogos do mercado não têm o necessário para atrair o público, disse em entrevista ao Eurogamer.

'Forza' ganha quinto game; confira evolução da franquia

A Microsoft divulgou a capa do game Forza Horizon nesta semana junto com o primeiro screenshot do título de Xbox 360. A série de corrida é exclusiva do console e está chegando a seu quinto título.

Bayern é campeão da Champions League em simulação de 'Fifa'

A EA Sports fez uma simulação da final da Champions League usando o game Fifa Manager 12. Na partida disputada virtualmente entre Bayern e Chelsea, o time alemão ganhou por 3 a 1, conquistando a vaga no Mundial de Clubes da Fifa.

'Tony Hawk's Pro Skater HD' ganha novas imagens

O game Tony Hawk's Pro Skater HD, que será lançado para Xbox 360 e Playstation 3 ainda em 2012, ganhou uma série de novas imagens.
Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.

Geral Cinema

Cansada das mocinhas, Kristen Stewart quer viver vilã no cinema

Em entrevista à revista Elle, Kristen Stewart discorreu a respeito de sua carreira e sobre quais tipos de papéis ela espera obter. A atriz de Crepúsculo disse que o personagem de Cathy Ames em A Leste do Éden é o papel que ela mais deseja interpretar. "Ela é uma psicopata. Eu não fiz nada disso ainda!"

Estrelas prestigiam première de 'Os Infratores' em Cannes

Celebridades como a atriz Bérénice Bejo e o rapper Puff Daddy prestigiaram a estreia do filme Os Infratores neste sábado(19) durante o Festival de Cannes. O elenco do filme, que inclui nomes como Shia Labeouf, Jessica Chastain e Mia Wasikowska, também passou pelo tapete vermelho.

Celebridades causam frisson no tapete vermelho de Cannes

A nata do cinema internacional está reunida no Festival de Cannes desde a última quarta feira. Na teoria, os filmes são as principais estrelas do evento, mas o centro das atenções acaba sendo as celebridades.

Em tarde de sol, Adam Sandler passeia com mulher e filhas

Adam Sandler foi visto na última quarta feira aproveitando o sol em Brentwood, Califórnia, muito bem acompanhado.

Ben Stiller é recepcionado por leão de 'Madagascar' em Cannes

O ator Ben Stiller prestigiou a estreia de Madagascar 3 Europe's Most Wanted nesta sexta feira durante o Festival de Cannes. Apesar de ter sido exibida no festival, a animação não entra para a competição pela Palma de Ouro.

Séries TV

Podmaníacos – Shameless, The Client List, Mad Men e muito mais

Estamos no final de abril e mesmo assim o Podmaníacos dessa semana está recheado de dicas de novas séries que estrearam nas últimas semanas. Será que tem algo que presta? É nessa edição também que revelamos o vencedor do concurso valendo um box de DVD com a 1ª temporada de Game of Thrones. Mesmo que [...]

Game of Thrones – 2×04: Garden of Bones

A empatia pelos fragilizados. Spoilers Abaixo: É comum, pelo menos para a maioria do público, se envolver com aqueles personagens que passam pelas maiores dificuldades. Surge um tipo de empatia, uma compaixão que se converte em uma torcida para que todos os obstáculos sejam superados e haja então a famosa volta por cima. Está aí [...]

Grey’s Anatomy – 8×20: The Girl With No Name

Saindo da zona de conforto. Spoilers Abaixo: Cá estou, mais uma vez, preparada para lançar mão dos meus já tradicionais elogios à temporada de Grey’s Anatomy. A série merece. Fez um episódio muito bonito, tratando de um tema polêmico, inspirado em noticiários que mais parecem história de terror, mostrando toda a força de Meredith Grey, [...]

Supernatural – 7×19: Of Grave Importance

Isso sim é uma Mansão Mal Assombrada. Spoilers Abaixo: Tenho que dizer que simplesmente adorei esse episódio de Supernatural. A Mansão Mal Assombrada recheada de fantasmas foi épica, e sem dúvidas esse foi um dos meus casos semanais preferidos da série toda. Pode parecer exagero, mas eu realmente adoro a forma como Supernatural, mesmo sem [...]

American Idol – 11×29/30: Top 7 Redux

Depois de uma semana que incluiu um dos melhores temas dos últimos tempos, performances sensacionais, um Top 7 em que ninguém merecia sair e mais resultados inesperados, parece que a identidade do dono da coroa do American Idol 11 está cada vez mais evidente. Spoilers Abaixo: Na segunda semana do Top 7 do American Idol, [...]

fashiongonerogue.com

Audrey Tautou by Shayne Laverdière for Marie Claire Russia

Belle Femme – The April issue of Marie Claire Russia features French movie star Audrey Tautou as a bewitching femme fatale of the 50s captured by Shayne Laverdière. The sylph-like Française oozes vintage elegance à...

Zuzanna Stankiewicz by Daniele Rossi for UnFlop #3

One Girl – Zuzanna Stankiewicz tries on the spring collections for size with the spring-summer issue of UnFlop Magazine. Photographed by Daniele Rossi with styling by Lorenzo Posocco, Zuzanna hits the studio in the unique...

Josephine Skriver by Honer Akrawi for Eurowoman June 2012

The Minx – Josephine Skriver turns up the heat for the June cover shoot of Eurowoman. In front of Honer Akrawi’s lens, the blonde beauty wears sporty looks with a sultry twist styled by Gertrud...

Cara Delevingne for Chanel Cruise 2013 by Karl Lagerfeld

Cruise Pastel – After taking a look at the runway show earlier, we focus on Chanel’s press kit images lensed by creative director Karl Lagerfeld for the label’s cruise 2013 collection. The photographs star British...

Josefien Rodermans by Jasper Abels for Prestage #4

Josefien – Following up the cover, we present the main editorial for Dutch publication Prestage Magazine’s fourth issue starring Josefien Rodermans. Photographed by Jasper Abels with styling by Habib Yahyaoui, Josefien keeps it simple in...

celebutopia

“The Avengers” Spoiler Reference Guide *UPDATED*

Now that “The Avengers” has blasted it’s way into theaters (and made more money than everyone else), it’s time I make a guide that points out most of the in-movie references as well as plot points that may show up in the sequels for Iron Man, Captain America, and Thor. Ready for a spoiler-filled journey? [...]

Sara Jean Underwood Gets Hot & Sweaty For Men’s Fitness Magazine June 2012

Maxim Magazine is dead to me. DEAD! I will have NO MORE of their lies! After so many years of shitty covergirl choices (90% of their choices are horrible), I’ve gone cold turkey from Maxim’s bullshit and have moved on to my new haven for hot ladies: health and fitness magazines for men! Turns out [...]

Victoria Justice Goes Retro For Nylon Magazine May 2012

It’s unfortunate that Victoria Justice wasn’t given the cover for the May 2012 issue of Nylon (the cover went to a trio of other actresses I could care less about) because she’s a super beautiful girl that reminds of my all-time favorite soap actress Vanessa Marcil. Anyway, VJ is in a 6-page article for the [...]

Dakota Fanning Shows Her Mature Side For California Style Magazine May 2012

Back when Dakota was on the cover of Cosmo a few months earlier, everyone bitched that she was”too sexy” because she was still 17 years old. Well, fast-forward to April 2012 and now that Dakota’s finally reached the ripe young adult of 18 years, we can FINALLY say that she’s too sexy without incurring the [...]

Emily Van Camp Heats It Up For Cosmopolitan USA May 2012

You wanna know something that is really FUCKED UP? The editors of Cosmo had two choices for the covergirl of the May issue: “Revenge” bad girl, Emily Van Camp or Reality-starlet-sister-to-a-whore Khloe Kardashian. And who did they choose? That’s right, the Yeti! In case you aren’t aware of it, Emily is on the hottest show [...]

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